“Conselho aos governantes”, por Luci Bonini

Esses dias, navegando pela internet, fazendo uma pesquisa sobre o Brasil colonial, me apareceu a frase:  “O povo é como um bando de carneiros que se tosquia, mas quando a tosquia vai até à carne produz infalivelmente a dor e quando isso acontece os dóceis animais se transformam em terríveis alimárias.” Esta frase é atribuída a Maurício de Nassau ao deixar o governo do Brasil holandês em 1644.

A frase compara o povo esfolado, sacrificado a alimárias, cujo significado é animal irracional e, nesse caso, a metáfora serve para descrever pessoas rudes, grosseiras e ignorantes.

Eu fui buscar se realmente Mauricio de Nassau havia dito isso e encontrei o livro Conselhos aos governantes, disponível no site do Senado Federal. De lá tirei alguns conselhos que também achei interessantes e deixo aqui para que meus leitores reflitam sobre como pensaram alguns homens eminentes que o Senado Federal faz questão de ter em sua biblioteca virtual. Vamos ver alguns.

A frase: “Honre os seus parentes mais próximos com funções de prestígio e entregue os empregos que conferem poder de fato aos seus amigos mais dedicados.” Esta frase foi dita por Isócrates, considerado o Pai da Oratória, ao rei Nicolés, lá pelos 400-380 anos a.C.

Arthashastra de Kautilya, considerado o “Maquiavel da Índia”, viveu mais ou menos 300 anos a.C. Assim ele se expressa sobre a escolha de ministros:  “Colocando-se sob a influência de todas as pessoas que compartilhassem dos seus segredos, o soberano poderia ser humilhado pela revelação desses segredos. Por isso deve ter como ministros aqueles que lhe deram prova de fidelidade em situação de dificuldade grave, aqueles cuja devoção ao soberano já foi testada.”

Nicolau Maquiavel nasceu em Florença, em 3 de maio de 1469, e morreu, ali, em 22 de junho de 1527: “nada há tão débil e instável como a fama do poder que não assenta na força própria” e uma outra frase bem interessante: “O príncipe deve, todavia, fazer-se temer de modo que, se não conquista o amor, evite o ódio.’’

Erasmo de Roterdã, nasceu em Roterdã, em outubro de 1469 e faleceu em Basiléia, em 1536. “O príncipe deve exigir de seus funcionários os mesmos padrões de integridade que ele próprio exibe, ou muito próximos deles. Ele não deve considerar suficiente ter simplesmente nomeado magistrados; a forma de sua nomeação é da maior importância, e ele deve certificar-se de que eles executem escrupulosamente as tarefas de que são encarregados.”

Miguel Cervantes Saavedra nasceu em Alcalá de Henares, em 9 de outubro de 1547 e morreu em Madri, em 23 de abril de 1616. No livro Dom Quixote, assim ele se dirige a Sancho Pança ao ser governador: “Nunca interpretes arbitrariamente a lei, como costumam fazer os ignorantes que têm presunção de agudos.”

E finalmente Dom Luís da Cunha nascido em Lisboa, em 25 de janeiro de 1662, e falecido em Paris, em 9 de outubro de 1740, formou-se em Coimbra, em Direito Canônico. “O Brasil não sangra menos a Portugal, porque sem embargo de já não ser livre a cada qual passar àquele Estado sem passaporte, conforme ouço dizer, contudo furtivamente se embarcam os que ao cheiro das minas querem lá ir buscar sua vida. O modo de poder povoar aquelas imensas terras, de que tiramos tantas riquezas, sem despovoar Portugal, seria permitir que os estrangeiros com as suas famílias se fossem estabelecer em qualquer das suas capitanias que escolherem.”

Assim julgue, cada um por si mesmo, como a política foi sendo construída e como cada governante foi orientado ao longo de séculos.

(Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal HojeDiario.com).

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