“Quando a mente adoece o corpo: o impacto das emoções na imunidade e no surgimento de doenças”, por Doutor Jorge Abissamra Filho

Durante muito tempo, a medicina separou o corpo da mente como se fossem sistemas independentes. Hoje, essa visão já não se sustenta. A ciência mostra, de forma cada vez mais consistente, que emoções crônicas — como estresse, ansiedade, tristeza persistente, raiva e sentimentos de impotência — não apenas afetam o bem-estar psicológico, mas exercem influência direta sobre o sistema imunológico e o risco de adoecimento físico.
O organismo humano foi desenhado para lidar com estressores agudos: uma ameaça pontual ativa mecanismos de defesa, libera adrenalina e cortisol, mobiliza energia e, depois, retorna ao equilíbrio. O problema surge quando o estresse deixa de ser episódico e se torna contínuo. Nesse cenário, o corpo passa a funcionar em “estado de alerta permanente”, algo biologicamente insustentável.

O cortisol, principal hormônio do estresse, é um exemplo claro dessa relação. Em curto prazo, ele é útil. Em níveis elevados e prolongados, porém, provoca efeitos deletérios: reduz a atividade de células de defesa, prejudica a produção de anticorpos, altera a resposta inflamatória e favorece infecções, doenças autoimunes e processos inflamatórios crônicos. Em outras palavras, o mesmo sistema criado para nos proteger pode, sob pressão emocional constante, nos fragilizar.

Não se trata apenas de estresse. Emoções reprimidas e não elaboradas também têm impacto fisiológico mensurável. Estudos mostram que pessoas que vivem conflitos emocionais intensos, lutos mal resolvidos ou sentimentos prolongados de desesperança apresentam maior incidência de distúrbios gastrointestinais, doenças cardiovasculares, dores crônicas, alterações hormonais e pior evolução de doenças já instaladas. O corpo frequentemente se torna o palco onde aquilo que não foi simbolizado emocionalmente encontra uma forma de expressão.

O sistema imunológico, longe de ser autônomo, está em diálogo permanente com o sistema nervoso e o endócrino. Citocinas inflamatórias, neurotransmissores e hormônios formam uma rede integrada. Quando o equilíbrio emocional se rompe, essa comunicação se desorganiza. O resultado pode ser tanto uma imunidade deprimida — com maior suscetibilidade a infecções e câncer — quanto uma imunidade desregulada, que passa a atacar o próprio organismo.

Outro ponto crucial é o comportamento associado ao sofrimento emocional. Pessoas emocionalmente exauridas dormem pior, alimentam-se mal, exercitam-se menos, abusam de álcool ou outras substâncias e negligenciam cuidados médicos. Esses fatores, por si só, já aumentam o risco de adoecimento. Assim, o impacto emocional atua de forma direta e indireta sobre a saúde.

Nada disso significa afirmar que “toda doença é psicológica” ou que basta “pensar positivo” para evitar adoecer — esse tipo de simplificação é injusto e cientificamente incorreto. Doenças têm causas multifatoriais: genéticas, ambientais, infecciosas, metabólicas e, sim, emocionais. O que a evidência aponta é que o estado emocional não é um detalhe secundário, mas um modulador relevante da saúde e da resposta aos tratamentos.

Cuidar da saúde emocional, portanto, não é luxo nem sinal de fraqueza. É estratégia preventiva e terapêutica. Psicoterapia, manejo do estresse, sono adequado, atividade física regular, vínculos sociais saudáveis e práticas que promovam autorregulação emocional não substituem tratamentos médicos, mas potencializam seus efeitos e melhoram a capacidade do organismo de se defender e se recuperar.A medicina do futuro — e cada vez mais a do presente — não pode ignorar essa integração. Tratar o corpo sem escutar a mente é oferecer um cuidado incompleto. E, muitas vezes, é justamente na escuta do sofrimento emocional que se encontra a chave para restaurar não apenas o equilíbrio psíquico, mas também a saúde física.

(Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal HojeDiario.com).

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