No Brasil de hoje, escapar de uma agressão ou se tornar mais uma vítima pode depender de algo tão frágil quanto um grito ouvido por alguém.
Foi exatamente isso que salvou uma jovem de 18 anos na noite de terça-feira, 10 de março, em uma rua do Itaim Paulista, na zona leste da cidade de São Paulo. Segundo as reportagens, o homem a perseguiu pela calçada, segurou seu braço e tentou puxá-la à força. A jovem reagiu e pediu socorro. Estudantes que voltavam da escola perceberam a situação e intervieram, impedindo a tentativa de estupro.
É um caso revoltante, mas, acima de tudo, revelador.
A jovem não escapou porque havia uma estrutura eficaz de prevenção. Não foi protegida por um Estado que chegou a tempo. Não foi poupada por uma política pública capaz de impedir a violência. Ela escapou porque teve reação, coragem e a sorte de ser ouvida.
E isso, por si só, já diz muito sobre o país em que vivemos.
Há algo de profundamente injusto em exigir das mulheres estratégias individuais para enfrentar um problema que é social, cultural e estrutural.
Desde cedo, nós, mulheres, aprendemos a mudar o caminho, evitar determinados horários, avisar quando chegamos em casa, desconfiar de tudo e de todos. Aprendemos a circular pela cidade não em liberdade, mas em permanente estado de alerta.
Como se o medo fosse uma condição natural da existência feminina.
Não é.
Quando uma mulher escapa de uma tentativa de estupro, costuma-se exaltar sua força. E, de fato, há força, presença de espírito e instinto de sobrevivência. Mas é perverso transformar sobrevivência em narrativa de superação. Nenhuma mulher deveria precisar ser heroína apenas para voltar para casa.
A tentativa de estupro registrada no último dia 10, em São Paulo, não surgiu do nada. Ela faz parte de um país em que a violência sexual cresce de forma alarmante e segue encontrando um Estado lento, falho e quase sempre reativo.
O relatório “Elas Vivem: a urgência da vida“, da Rede de Observatórios da Segurança, mostra que os registros de violência sexual e estupro nos nove estados monitorados passaram de 602, em 2024, para 961, em 2025, um aumento de 59,6%. Mais cruel ainda é constatar que 56,5% das vítimas tinham entre 0 e 17 anos. Em São Paulo, foram 191 casos registrados em 2025.
Não são apenas números. São sinais claros de um fracasso persistente.
Fracasso de um Estado que ainda atua mais na reação do que na prevenção. Fracasso de uma rede de proteção que, muitas vezes, chega tarde. Fracasso de uma sociedade que ainda convive com excessiva tolerância diante da violência contra a mulher e que, não raro, desloca para a vítima o peso de sobreviver.
Não basta repetir que a violência é inadmissível. Não basta produzir homenagens, campanhas ou discursos institucionais. Não basta endurecer o tom depois que o horror já aconteceu. O enfrentamento real exige política pública séria, presença efetiva do Estado, medidas protetivas céleres, investigação eficiente, acolhimento digno às vítimas, iluminação urbana adequada, mobilidade segura e educação permanente contra a cultura do estupro.
Também exige uma mudança de consciência.
Porque, enquanto nós, mulheres, seguirmos aprendendo a nos proteger de tudo, em vez de a sociedade aprender a não nos violentar, continuaremos fracassando no essencial.
Uma sociedade verdadeiramente justa não é aquela em que mulheres conseguem escapar da violência, mas aquela em que elas não precisam fugir.
(Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal HojeDiario.com).



