“Justiça por Isabelly não é vingança. É o limite entre civilização e barbárie”, por Neusa Freitas

No dia 26 de março, Suzano será palco de um julgamento que vai muito além de um processo. O que estará em jogo não é apenas a responsabilização por um crime, mas também o limite que uma sociedade estabelece para aquilo que aceita ou não como tolerável.
Isabelly Joana tinha 20 anos. Tinha sonhos, planos e uma vida inteira pela frente. Era estudante de Medicina Veterinária, uma jovem dedicada, com projetos, afeto pelos animais e um olhar sensível para a vida. Teve também coragem: a coragem de encerrar um relacionamento abusivo.

Ela fez tudo certo.
Terminou um relacionamento que a fazia sofrer.
E, ainda assim, foi morta com uma facada pelas costas.
Essa frase, por si só, deveria nos constranger como sociedade.

No dia 26, Suzano não julga apenas um crime. Julga o quanto ainda falhamos como estrutura, como cultura e como responsabilidade coletiva.
Os números ajudam a entender o tamanho do problema, mas não alcançam a dor que existe por trás de cada caso. Em 2025, o Brasil registrou 1.470 mulheres vítimas de feminicídio. São quatro por dia. Quatro histórias interrompidas diariamente. Quatro famílias devastadas todos os dias. Trata-se de um dado oficial. Ainda assim, antes de qualquer estatística, é o retrato de um fracasso que se repete.

A Justiça precisa cumprir o seu papel. Precisa ser firme, técnica e baseada em provas. Precisa responsabilizar.
Não por vingança.
Mas porque a ausência de resposta também comunica. A impunidade ensina, naturaliza e delimita, ainda que de forma silenciosa, o valor que damos à vida de uma mulher.
E esse talvez seja um dos pontos mais difíceis de encarar.

Porque a Justiça chega depois.
Depois do medo.
Depois da violência.
Depois, muitas vezes, da perda irreparável.
Antes disso, existe algo que ainda falha, e falha de forma persistente: a formação.

Os relatos tornados públicos pela mãe de Isabelly revelam sinais claros: comportamentos de controle, ciúmes excessivos, tentativas de isolamento e atitudes agressivas. Elementos que, com frequência, são relativizados, ignorados ou até romantizados.
Nada disso surge de repente.
Isso se constrói.
Constrói-se nas referências, nos exemplos, nos discursos e, principalmente, nas permissões.

Enquanto continuarmos confundindo controle com cuidado, ciúme com amor e agressividade com “jeito difícil”, continuaremos formando homens que não sabem lidar com frustração, rejeição e limites. E, quando o limite aparece, alguns reagem da forma mais violenta possível.

A Justiça é necessária. É indispensável.
Mas ela não educa.
Não forma caráter.
Não ensina respeito.

Isso começa dentro de casa: na forma como criamos nossos filhos, na maneira como ensinamos, ou deixamos de ensinar, que ninguém pertence a ninguém, que o “não” precisa ser respeitado e que relação não é posse.
O julgamento do assassino de Isabelly precisa ser um marco de Justiça.
Mas precisa ser, sobretudo, um ponto de inflexão.

Como mulher e mãe de uma adolescente, é impossível não sentir. É impossível não se colocar no lugar da mãe de Isabelly. A dor atravessa. Dói imaginar. Dói reconhecer o quanto ainda estamos vulneráveis.
Nenhuma mãe deveria precisar transformar dor em luta para pedir Justiça.
Porque Justiça não devolve uma vida, mas precisa garantir que a vítima jamais seja tratada como apenas mais um número.

(Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal HojeDiario.com).

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