“Quando a dor nos obriga a caminhar juntas”, por Neusa Freitas

Ao longo deste mês de março, escolhi direcionar meus textos para um olhar direto sobre a realidade das mulheres. Escrevi sobre a distância entre o discurso político e o compromisso real com a nossa vida.
Sobre como aprendemos, desde cedo, a viver em estado de alerta. E sobre o limite entre civilização e barbárie diante de uma vida interrompida pela violência.

Não são textos isolados. São partes de uma mesma realidade.
Uma realidade em que ser mulher ainda significa lidar com risco, medo e, muitas vezes, dor.

A dor de não nos sentirmos seguras.
A dor de perceber que, muitas vezes, o discurso político não se transforma em proteção real.
A dor de ver governantes e estruturas que ainda não conseguem, ou não priorizam, garantir aquilo que deveria ser básico: a nossa segurança.

A dor da jovem de 18 anos que precisou reagir, gritar e contar com o acaso para não se tornar mais uma vítima.
A dor irreparável de uma mãe que perdeu a filha, vítima de feminicídio, uma dor que não se encerra, não se explica e não se supera.
Mas é justamente dessa dor que pode nascer algo que precisamos fortalecer com urgência.

A escritora Vilma Piedade nomeou isso com precisão: dororidade, um conceito que reconhece a dor não como algo que isola, mas como aquilo que pode nos unir.
Não é apenas sobre união entre mulheres. É sobre reconhecer que a dor existe, atravessa nossas vidas de formas diferentes, mas não pode nos separar. Pelo contrário, precisa nos aproximar.

A dororidade parte de um lugar honesto. Não romantiza a realidade. Não ignora as desigualdades. Não finge que todas as mulheres vivem as mesmas experiências. Mas afirma que, apesar das diferenças, existe um ponto de encontro: a dor provocada por uma estrutura que ainda insiste em nos violentar.
E essa dor precisa nos mover.

Vivemos um momento difícil. No último ano, os feminicídios bateram recorde histórico. O Brasil ocupa a 5ª posição mundial em homicídios de mulheres, entre 83 países. Em São Paulo, o número de vítimas quase dobrou em quatro anos, com alta de 96,4%.
A violência física, psicológica, sexual, patrimonial, moral e também a violência vicária continuam acontecendo, muitas vezes dentro de casa, longe dos olhos de quem poderia intervir.
Ao mesmo tempo, não podemos ignorar os avanços.

Hoje, mulheres ocupam espaços que antes lhes eram negados. Estão na política, nas empresas, nas universidades e nas ruas. Romperam barreiras, abriram caminhos e ajudaram a transformar estruturas.

Mas ainda falta muito.
Nos espaços de poder, no Executivo, no Legislativo e no Judiciário, as mulheres seguem sendo minoria. O avanço é real, mas ainda está longe de ser suficiente.

Avançar não significa estar segura.
E é aqui que está o ponto mais importante.
Essa luta não pode ser fragmentada.

Não é de direita.
Não é de esquerda.
Não é de um grupo específico.
É de todas nós.
E, em um ano eleitoral, essa reflexão precisa ir além das palavras.
Precisamos olhar com atenção para quem se apresenta como representante. Precisamos questionar, exigir e escolher com responsabilidade. Projetos concretos de proteção à vida das mulheres não podem ser secundários. Precisam estar no centro do debate.

Enquanto houver uma mulher vivendo com medo, nenhuma de nós chegou onde deveria.
Enquanto houver uma mulher sendo silenciada, nenhuma conquista estará completa.
Por isso, mais do que nunca, precisamos entender que não existe avanço possível sem união.
Uma união real.

Que não passa por concordar em tudo, mas por reconhecer o essencial.
Que não depende de ideologia, mas de humanidade.
Que não escolhe quem merece apoio, mas se posiciona diante da dor.

Dororidade é isso.
É não virar o rosto.
É não minimizar o relato.
É não julgar a decisão de quem tenta sair ou de quem ainda não conseguiu.
É estar presente.

Talvez a mudança que esperamos das instituições ainda leve tempo. Mas a forma como nós nos colocamos umas diante das outras pode começar agora.

Sem filtros.
Sem disputas.
Sem divisões.
Com consciência.
Porque, no fim, o que nos une não é apenas a dor. É a decisão de não deixar que nenhuma mulher enfrente o mundo sozinha.

(Inspirado no conceito de “dororidade”, do livro Dororidade*, de Vilma Piedade.)*

(Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal HojeDiario.com).

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