“Desparasitação mental”, por Luci Bonini

Há algo curioso no fato de cuidarmos tão bem do corpo e tão pouco daquilo que o habita. Me lembro de quando eu era criança, lá pelos idos dos anos 60, meus pais sempre desparasitavam eu e meus irmãos. Tomávamos um remédio que matava lombrigas. Atualmente, não imagino as pessoas fazendo isso, mas eu faço ainda, um comprimido pequeno, quase banal, percorre o organismo silenciosamente, expulsando aquilo que não nos pertence — o invisível que, mesmo discreto, rouba energia, vitalidade, presença. É um gesto de cuidado. Um reconhecimento de que nem tudo o que está em nós é, de fato, nosso.
Mas e a mente? É possível desparasitar a mente?

A mente, esse território vasto, raramente recebe o mesmo cuidado. Não há receita médica para os excessos de medo que ingerimos diariamente, nem bula que alerte sobre os efeitos colaterais do alarmismo contínuo. Ainda assim, consumimos. E como consumimos. Notícias que não informam, apenas inflam. Narrativas que não esclarecem, apenas confundem. Palavras que carregam mais peso do que verdade. Tudo entra — pelos olhos, pelos ouvidos, pelas telas — e se instala. Sem pedir licença.

E, aos poucos, algo muda…

O pensamento, antes leve, passa a girar em torno do risco. O futuro, antes aberto, torna-se estreito. A esperança, antes silenciosa, é substituída por um ruído constante de preocupação. Como no corpo, os parasitas mentais não chegam fazendo alarde. Eles se adaptam. Se misturam. Tornam-se quase imperceptíveis — até que já não sabemos mais o que é nosso e o que foi implantado.

Talvez a grande ilusão seja acreditar que somos imunes ao que consumimos, pois é, mas a verdade é que não somos.
Cada conteúdo absorvido é uma semente. E nem todas germinam flores.

Há pensamentos que drenam. Ideias que se alimentam da nossa atenção. Crenças que nos colonizam por dentro, ocupando espaços que antes eram habitados por silêncio, criatividade, fé. E, diferente do corpo físico, não há um exame simples que revele a infestação.
Mas há sinais…

Cansaço sem causa aparente. Ansiedade que não encontra origem. Uma sensação difusa de ameaça, mesmo quando tudo, ao redor, parece em ordem. Como se a mente estivesse constantemente em estado de alerta, lutando contra algo que não sabe nomear.

Talvez seja hora de pensar em uma nova forma de cuidado: uma desparasitação mental.

Não com medicamentos, mas com escolhas. Escolher o que entra. Escolher o que permanece. Escolher, sobretudo, o que merece ser nutrido dentro de nós.

Silenciar também é um ato de higiene. Desligar-se do excesso. Filtrar o que não edifica. Recusar, conscientemente, aquilo que se apresenta como urgente, mas não é essencial. É preciso coragem para não saber de tudo — e mais ainda para não se contaminar com tudo.

Porque a mente, assim como o corpo, tem sua própria inteligência de cura. Mas ela precisa de espaço. Precisa de pausa. Precisa de ausência de ruído para reorganizar-se.

E talvez, no fim, desparasitar a mente seja um exercício de retorno. Retorno ao que é essencial, ao que é verdadeiro, ao que nasce de dentro, e não do bombardeio constante de fora.

Cuidar da mente não é um luxo. É sobrevivência.
E, em tempos de excesso de informação, escolher o que não entra pode ser o mais poderoso ato de liberdade.

(Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal HojeDiario.com).

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