“Jornada 6×1: o nosso tempo vale menos?”, por Neusa Freitas

O problema da jornada 6×1 é que, para muitas de nós, ela não é 6×1.
É 6×1 fora de casa.
E 7×0 dentro dela.
Porque o expediente acaba, mas a refeição, a roupa, os filhos, a rotina e as preocupações seguem esperando.
É por isso que tratar a jornada 6×1 como uma discussão apenas técnica é um jeito muito confortável de não olhar para a vida real.
Esse debate não cabe apenas em planilhas.
Ele atinge o corpo, o humor, a mente e a convivência.
E se reflete na exaustão que vai se acumulando até virar rotina.
E, para nós, pesa mais.

Pesa porque, para muitas de nós, o expediente não termina quando saímos do trabalho.
Ele apenas muda de lugar.
Encerramos um turno e começamos outro.
Chegamos em casa e ainda há almoço, jantar, roupa, filhos, pendências, preocupações e a casa para manter de pé. E, no fim, sempre existe mais alguma coisa esperando.
É aí que mora a crueldade.
A jornada 6×1 já é pesada por si só.

Mas, na nossa vida, ela encontra outra jornada já em andamento.
Talvez por isso tanta gente trate esse assunto com frieza, porque o nosso cansaço foi naturalizado.
Virou cenário.
Virou costume.
E deixou de chocar.
Como se dar conta de tudo fosse prova de força.
Não é.

É sobrecarga.
É desgaste acumulado.
É uma forma lenta de adoecimento que muita gente prefere chamar de rotina.
E é justamente aqui que os políticos entram, ou deveriam entrar.

Porque, quando o assunto é mulher, nunca falta discurso bonito.
Nunca falta homenagem.
Nunca falta fala emocionada sobre dignidade, respeito, família e proteção.
Mas basta o debate sair do palanque e encostar na vida concreta das trabalhadoras para o entusiasmo diminuir.

Porque defender mulher no discurso é fácil.
Difícil é enfrentar um modelo de trabalho que rouba tempo, saúde, convivência e presença.
Mais difícil ainda é admitir que essa conta pesa mais sobre quem trabalha fora e ainda sustenta, quase sempre sozinha, a engrenagem de dentro de casa.
Estamos em ano eleitoral.
E isso deveria servir para mais do que promessas de ocasião.
Nós, mulheres, não podemos mais nos contentar com acenos, frases prontas e sensibilidade de campanha.

Precisamos observar posições.
Precisamos cobrar coerência.
Precisamos prestar atenção em quem realmente compreende o que atravessa a nossa vida de segunda a segunda.
Porque a jornada 6×1 não expõe apenas uma escala.

Ela expõe uma lógica antiga e cruel: a de que o nosso tempo sempre pode ser esticado mais um pouco.
Mais um pouco no trabalho.
Mais um pouco em casa.
Mais um pouco no cansaço.
Mais um pouco no sacrifício, até o limite.

Até quando?
Em ano eleitoral, essa pergunta precisa incomodar.
Porque quem pede o voto das mulheres precisa mostrar, na prática, se está disposto a defender também o direito delas ao descanso, ao tempo e à própria vida.
No fim, a jornada 6×1 escancara algo que muita gente ainda insiste em tratar como normal: exigem tudo de nós, o tempo todo, e ainda chamam isso de força.
Mas não é força quando a mulher precisa viver no limite para que tudo continue funcionando. É abandono disfarçado de rotina.

(Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal HojeDiario.com).

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