“Desparasitação emocional: o contágio das reações”, por Luci Bonini

Na semana passada, fiz uma reflexão sobre a desparasitação mental. Conversando com alguns amigos eles me convidaram para continuar com essa reflexão, então aqui vai: deparasitação emocional.
Há quem pense que sentir é sempre sinônimo de verdade, mas nem todo sentimento nasce limpo. Alguns chegam já contaminados — não pelo que vivemos, mas pelo que absorvemos sem perceber. São emoções prontas, embaladas em frases curtas, títulos apressados, recortes de realidade. Emoções que não brotam: são induzidas. Eu iria ainda mais longe: figurinhas que parecem ingênuas…

Vivemos um tempo curioso, em que as pessoas não leem — reagem. Um fragmento basta. Uma palavra fora de contexto já é suficiente para acionar um sistema inteiro de defesa, ataque, julgamento. Não há pausa entre o estímulo e a resposta. Não há digestão. Apenas descarga.

E assim, o campo emocional vai sendo ocupado…

A indignação, que poderia ser lúcida, torna-se automática. A tristeza, que poderia ser profunda, torna-se rasa e repetitiva. A raiva, que poderia ser justa, torna-se difusa — atinge tudo, sem direção, sem consciência.

Como no corpo físico, há parasitas que se alimentam justamente disso: da nossa energia não processada. Eles não precisam de muito: um gatilho pequeno já basta — uma frase mal interpretada, uma ideia que confronta crenças antigas, um espelho inesperado. E, de repente, a emoção não é mais uma resposta ao presente, mas uma reação a tudo o que já estava acumulado.

É por isso que, muitas vezes, o excesso da reação revela mais sobre quem reage do que sobre aquilo que foi dito. Não é sobre o texto, mas sim sobre o que o texto tocou.

Às vezes não é sobre uma conversa… mas justamente como saem as palavras, as conclusões…

Talvez este seja um dos maiores desafios do nosso tempo: reaprender a sentir com consciência. Permitir que a emoção passe por nós, mas não nos domine. Observar antes de responder. Nomear antes de projetar. Respirar antes de atacar.

Isso não significa anular o sentir — pelo contrário, significa refiná-lo.
Porque sentir, de verdade, exige presença.

Exige que a gente se responsabilize pelo que emerge dentro de nós, em vez de atribuir sempre ao outro a causa do que nos atravessa. Exige maturidade para reconhecer que nem toda dor vem de fora — muitas apenas encontram, no mundo, um ponto de ativação.

E talvez a desparasitação emocional comece exatamente aí: no instante em que percebemos que nem tudo o que sentimos nos pertence por inteiro.

Que há emoções herdadas, repetidas, amplificadas. Que há reações que são ecos — não respostas. Que há tempestades internas que não começaram no momento presente, mas encontram nele uma oportunidade de se manifestar.

Desparasitar as emoções é criar espaço entre o sentir e o agir. É interromper o ciclo automático. É escolher não se deixar conduzir por impulsos que não foram compreendidos. É, de alguma forma, devolver à emoção a sua dignidade original: a de ser um sinal — não um comando.

Porque quando tudo vira reação, perdemos algo essencial: a capacidade de refletir. E sem reflexão, qualquer emoção pode se tornar um território fértil para o descontrole.

Talvez, então, o verdadeiro autocuidado emocional não esteja em sentir mais ou menos — mas em sentir melhor. Com mais consciência… Com mais presença…
Com mais verdade…

E, sobretudo, com menos contaminação!!! Pense nisso!!!

(Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal HojeDiario.com).

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