— Você pode repetir? — ele pediu, inclinando levemente a cabeça, como quem tenta ajustar a frequência de um ruído.
— Eu disse que nós temos diferenças. Muitas. Históricas, culturais, religiosas… — respondi, já antecipando o cansaço da explicação.
— Sim, eu registrei isso — ele tocou o próprio pulso, onde uma luz pulsou brevemente e continuou — mas não foi essa parte que me pareceu inconsistente. Refiro-me ao fato de vocês viverem no mesmo planeta.
— E daí?
— Daí que, no meu sistema, compartilhamento de habitat implica cooperação mínima para sobrevivência coletiva.
Sorri, meio sem graça e respondi:
— Aqui não funciona assim.
Ele pareceu genuinamente intrigado.
— Vocês respiram o mesmo ar, correto?
— Sim.
— Dependem da mesma água?
— Sim.
— São vulneráveis aos mesmos colapsos ambientais?
— Também.
Ele fez uma pausa longa. Longa demais para um diálogo comum, curta demais para ser silêncio.
— Então por que organizam conflitos como se pertencessem a realidades incompatíveis?
Respirei fundo.
— Porque acreditamos que somos diferentes.
— Diferentes em quê? — ele insistiu, com uma precisão quase incômoda.
— Em ideias, valores, crenças… identidade.
Ele caminhou alguns passos, observando o horizonte como se estivesse analisando uma equação invisível.
— No meu mundo, diferença é um dado. Não um argumento para ruptura.
— Aqui, às vezes é.
— Mas isso não parece… funcional — ele disse, com uma franqueza desarmante. — Vocês constroem sistemas complexos para garantir a própria existência e, simultaneamente, produzem mecanismos que a ameaçam.
— Você está simplificando.
— Estou descrevendo — corrigiu, sem elevar o tom. — Por exemplo: vocês classificam uns aos outros por categorias simbólicas e, a partir disso, estabelecem hierarquias de valor.
— É mais complicado que isso.
— Tudo o que observei indica o contrário. A complexidade está nos discursos que justificam. A estrutura é simples.
Fiquei em silêncio.
Ele voltou-se para mim com um olhar curioso — não julgador, apenas curioso.
— Há algo mais que não compreendo.
— O quê?
— Vocês reconhecem, em nível discursivo, que possuem necessidades comuns: segurança, afeto, alimento, pertencimento. No entanto, operam socialmente como se essas necessidades fossem exclusivas ou excludentes.
— Talvez seja medo.
— Medo de quê?
Demorei a responder.
— Do outro.
Ele inclinou novamente a cabeça.
— Mas o “outro”, nesse caso, não é apenas uma variação de vocês mesmos?
— Em teoria, sim.
— Então o medo é de si mesmos, projetado externamente?
A pergunta ficou suspensa entre nós.
— Você sempre fala assim? — tentei escapar.
— Assim como?
— Como se estivesse desmontando tudo.
Ele hesitou por um instante — o primeiro sinal de algo próximo de incerteza.
— No meu sistema, compreender exige decompor.
— Aqui, às vezes, compreender dói.
Ele registrou isso. Literalmente. A luz no pulso voltou a pulsar.
— Isso explica parcialmente — murmurou. — Se o entendimento gera desconforto, há incentivo para evitá-lo.
— Agora você está começando a entender — respondi, com um meio sorriso.
Ele não sorriu de volta.
— Ainda não. Porque evitar o entendimento compromete a sobrevivência coletiva. E, no entanto, vocês persistem.
Olhei ao redor. Pessoas passando, cada uma imersa em sua própria urgência.
— Talvez a gente não saiba fazer diferente.
Ele me observou por alguns segundos, como se essa fosse, finalmente, uma resposta aceitável.
— Isso é uma hipótese consistente — disse. — Incapacidade aprendida.
— Soa pior do que é.
— Ou mais preciso.
O silêncio voltou, mas dessa vez não era incômodo.
— Você vai relatar isso para o seu planeta? — perguntei.
— Sim.
— E o que vai dizer?
Ele demorou mais dessa vez. Quando respondeu, sua voz parecia ligeiramente diferente, menos analítica, talvez.
— Direi que encontrei uma espécie com alto potencial de cooperação, mas com sistemas simbólicos que frequentemente operam contra sua própria sobrevivência.
— Isso não parece um bom diagnóstico.
— Não é um diagnóstico — ele corrigiu. — É um estado.
— E tem solução?
Ele me olhou como se a pergunta, dessa vez, fosse minha prova.
— Sim.
— Qual?
— Vocês precisariam começar a agir de acordo com aquilo que já sabem.
Ri, curto.
— Isso é tudo?
— Isso é o essencial.
Ele fez uma pausa e completou:
— O restante, vocês já construíram.
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