“As canetas do emagrecimento: milagre moderno ou problema anunciado?”, por Doutor Jorge Abissamra Filho

Se existe um tema de saúde que dominou o noticiário — e a vida real — nas últimas semanas, é o uso das chamadas “canetas para emagrecer”. Medicamentos como Ozempic, Wegovy e Mounjaro deixaram de ser associados apenas ao tratamento de diabetes ou obesidade grave e passaram a ocupar um espaço cada vez maior no universo estético. Hoje, eles aparecem nas redes sociais, nas conversas do dia a dia, nos consultórios e nas manchetes, cercados por promessas de transformação rápida e resultados quase imediatos.
Do ponto de vista médico, esses medicamentos representam, de fato, um avanço importante. Eles atuam em mecanismos hormonais ligados à fome, à saciedade e ao metabolismo, permitindo perdas de peso antes difíceis de alcançar sem cirurgia. O problema, porém, não está necessariamente na medicação, mas na forma como ela vem sendo utilizada.

Cresce o número de pessoas sem indicação clínica recorrendo ao tratamento por conta própria, ajustando doses sem acompanhamento e tratando uma questão complexa como se houvesse uma solução simples e instantânea.

Com isso, começam a surgir os efeitos colaterais — físicos e comportamentais. Náuseas intensas, perda de massa muscular e até quadros de desnutrição já entram no debate, além da falsa ideia de que emagrecer rápido significa emagrecer com saúde. Outro impacto preocupante é no acesso aos medicamentos: com a explosão da demanda estética, pacientes que realmente dependem dessas medicações, como diabéticos, já enfrentam dificuldade para encontrar o tratamento ou arcar com os custos. Um avanço legítimo da medicina passa, assim, a gerar distorções importantes no sistema.

Também existe uma pergunta que segue sem resposta simples: o que acontece depois que o uso é interrompido? Em muitos casos, o peso volta se não houver mudança consistente no estilo de vida, reforçando algo que a medicina já sabe há décadas: não existe fórmula mágica para um problema multifatorial. Essas medicações são ferramentas poderosas — talvez as mais eficazes já criadas para controle de peso —, mas ferramenta não substitui estratégia. No meio de tanto hype, o risco é transformar um tratamento sério em produto de consumo e trocar o enfrentamento real da obesidade por mais uma promessa de solução imediata.

(Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal HojeDiario.com)

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