“O primeiro som que ficou marcado foi o do mar”: moradora de Suzano relata experiência após implante coclear

PUBLICIDADE

Há cerca de 13 anos, Maria Angélica Monteiro da Silva começou a perceber que as vozes ao seu redor estavam ficando cada vez mais distantes. A perda auditiva avançou de forma progressiva até chegar ao grau profundo e afetar sua comunicação com familiares, amigos e no trabalho. Hoje, aos 45 anos e moradora de Suzano, ela vive uma nova fase após passar por uma cirurgia de implante coclear bilateral. A história dela ganha destaque durante o Setembro Azul, mês dedicado à conscientização, à visibilidade e aos direitos da comunidade surda no Brasil. Nascida em Palmares, Pernambuco, Maria Angélica trabalha como Agente Comunitária de Saúde (ACS) na USF Jardim Ikeda, em Suzano, desde 2021. Ela também é fundadora do Projeto Um Toque de Amor, que desenvolve ações sociais para crianças e famílias em situação de vulnerabilidade.
Em entrevista ao portal Hoje Diário, Maria Angélica contou como enfrentou o avanço da perda auditiva.

“Foi em 2013 que comecei a perceber a perda da minha audição. Foi um processo progressivo, e as vozes foram ficando cada vez mais distantes. Eu sofria em silêncio, tentando me adaptar àquela realidade, sem imaginar que perderia completamente a audição”, contou.
Após avaliações médicas e exames, Maria Angélica recebeu o diagnóstico de otosclerose severa. A audição continuou piorando ao longo dos anos até chegar à perda auditiva profunda.
Durante parte desse período, ela utilizou aparelhos auditivos. No início, os dispositivos ajudavam, mas deixaram de ser suficientes conforme a perda avançava. A dificuldade para compreender a fala se tornava ainda maior em ambientes barulhentos e durante conversas com várias pessoas.

Um dos momentos mais marcantes aconteceu durante uma reunião em família. Enquanto todos conversavam, Maria Angélica percebeu que não conseguia acompanhar o que estava sendo dito. “Todos conversavam, mas eu não conseguia entender o que diziam. Aquilo me fez perceber que minha perda auditiva estava se agravando e afetando até os momentos mais especiais da minha vida”, relembrou.

A dificuldade para ouvir também passou a interferir na relação com amigos e na rotina profissional. Para acompanhar as conversas, ela precisava pedir que as pessoas repetissem as falas e recorria à leitura labial.
A possibilidade de realizar um implante coclear surgiu durante uma consulta com o médico Sandro Muniz. Conhecido popularmente como “ouvido biônico”, o implante coclear é um dispositivo eletrônico de alta tecnologia indicado para ajudar a restaurar a audição de pessoas com perda auditiva severa a profunda que não apresentam melhora suficiente com aparelhos auditivos convencionais. Maria Angélica relatou que já não conseguia compreender as pessoas e passou a considerar o procedimento diante do avanço da perda auditiva.

A decisão pela cirurgia veio acompanhada de ansiedade e da esperança de voltar a ouvir. Em 9 de abril de 2025, ela passou pelo implante coclear bilateral no IOU/Unicamp, em Campinas, em procedimento realizado pelo médico Arthur Menino Castilho. A cirurgia ocorreu dois dias antes do aniversário de Maria Angélica.

Após a ativação do dispositivo, começou uma etapa diferente daquela que ela havia enfrentado até então: aprender a reconhecer e interpretar os sons. Entre as experiências dessa nova fase, uma permanece especialmente viva em sua memória. “O primeiro som que ficou marcado foi o do mar. Foi uma experiência emocionante, que representou o início de uma nova fase da minha vida e a possibilidade de redescobrir os sons”, contou.

O implante, no entanto, não significou compreender imediatamente tudo o que estava ao seu redor. No começo da adaptação, Maria Angélica contou que os sons pareciam altos, estranhos e até robóticos.
Com os mapeamentos do dispositivo e a prática diária, ela começou gradualmente a reconhecer melhor os sons e as vozes. Uma das conquistas que mais a emocionaram ocorreu quando conseguiu identificar duas músicas em uma mesma noite. “É um verdadeiro trabalho de formiguinha”, definiu.

O processo também permitiu uma mudança importante na vida profissional. Maria Angélica conseguiu retornar ao trabalho como Agente Comunitária de Saúde e retomou as visitas domiciliares na USF Jardim Ikeda.
Mesmo depois do implante, algumas barreiras de comunicação permanecem. Ela ainda encontra dificuldades para compreender falas em ambientes barulhentos ou quando várias pessoas conversam ao mesmo tempo. Nessas situações, a leitura labial continua sendo um recurso importante.

A experiência faz com que Maria Angélica chame a atenção para atitudes que podem facilitar uma conversa com pessoas que apresentam dificuldades semelhantes. No caso dela, falar mais alto não significa tornar a comunicação mais fácil.

É justamente a discussão sobre barreiras como essas que está entre as pautas do Setembro Azul. A mobilização busca dar visibilidade à comunidade surda, combater o capacitismo e as dificuldades de comunicação e chamar a atenção para a inclusão educacional e social e para o acesso a políticas públicas.

No Brasil, 26 de setembro marca o Dia Nacional do Surdo, instituído pela Lei número 11.796/2008. A data faz referência à fundação, em 1857, da primeira escola para surdos do país, no Rio de Janeiro, atual Instituto Nacional de Educação de Surdos. Em 30 de setembro, são lembrados o Dia Internacional do Surdo e o Dia Internacional do Tradutor e Intérprete de Línguas de Sinais.
A Língua Brasileira de Sinais (Libras), por sua vez, é reconhecida como meio legal de comunicação e expressão pela Lei número 10.436/2002. A legislação estabelece que o poder público e as empresas concessionárias de serviços públicos devem apoiar seu uso e sua difusão como meio de comunicação das comunidades surdas brasileiras.

Em 2026, mais de 12 mil violações de direitos humanos contra pessoas com deficiência auditiva e surdez foram registradas em todo o território nacional pelo Disque Direitos Humanos – Disque 100. Casos de discriminação, violência e outras violações podem ser denunciados gratuitamente pelo canal, que funciona 24 horas por dia e oferece atendimento em Libras por videochamada.

Enquanto o Setembro Azul chama a atenção para essas questões, Maria Angélica segue seu próprio processo de adaptação. Ela continua em acompanhamento no IOU, em Campinas, onde realiza os mapeamentos do implante coclear e percebe, gradualmente, avanços na compreensão dos sons e das palavras.

Durante essa trajetória, ela destaca o apoio recebido das filhas, dos pais, dos irmãos e do namorado, que também a acompanha nas consultas. Para outras pessoas que enfrentam uma situação semelhante, Maria Angélica ressalta: “Cada pessoa tem seu tempo e sua trajetória. Tenham fé, paciência e coragem para recomeçar. A deficiência auditiva não me define.”

 

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE