Lembro-me de uma época em que circulava no Brasil um jornal chamado Notícias Populares. Sua especialidade eram as manchetes escandalosas, os crimes violentos, as tragédias familiares e toda sorte de acontecimentos capazes de despertar a curiosidade humana pelo grotesco. Costumávamos brincar que, se espremêssemos suas páginas, delas escorreria sangue.
O tempo passou, o jornal desapareceu, mas sua essência parece ter encontrado um território muito mais fértil: as redes sociais.
Agora, não precisamos mais comprar o jornal na banca da esquina. O espetáculo da tragédia chega gratuitamente, a qualquer hora, na palma de nossas mãos. E, diferentemente daquele velho periódico, que tinha um número limitado de páginas, as redes oferecem um desfile interminável de atrocidades, indignações, insultos e manifestações de uma ignorância que já não sente necessidade de se esconder.
Há algo profundamente inquietante nesse fenômeno. Enquanto professores, pesquisadores, escritores, cientistas e tantas pessoas comprometidas com a produção e a divulgação do conhecimento se esforçam para compartilhar conteúdos relevantes, frequentemente alcançando algumas dezenas de leitores, outros perfis acumulam milhares ou milhões de seguidores exibindo a violência, alimentando o ódio ou transformando o sofrimento alheio em entretenimento.
Estranho, porque parece que a inteligência precisa pedir licença para entrar, enquanto a estupidez arromba a porta e ainda recebe aplausos.
Não se trata de condenar as redes sociais. Elas representam uma das mais extraordinárias possibilidades de comunicação, o problema não está propriamente na tecnologia, mas naquilo que estamos fazendo com ela.
Muitas pessoas valorizam mais as notícias de crimes hediondos, especialmente aqueles cometidos contra mulheres e crianças, multiplicam-se nas telas. É necessário denunciá-los, é obvio, mas as pessoas fizeram disso um ganha-pão. Quando o sofrimento humano se transforma em mercadoria, a vítima corre o risco de ser violentada novamente, agora pelo olhar de milhões de espectadores.
Lembro-me de um pensamento associado a Martin Luther King Jr.: “O que preocupa não é apenas o clamor dos maus, mas o silêncio dos bons.” Independentemente das diferentes versões pelas quais essa reflexão chegou até nós, sua atualidade é impressionante.
Entretanto, talvez seja necessário perguntar: os bons estão realmente silenciosos ou simplesmente deixaram de ser ouvidos?
Quantas pessoas produzem conteúdos educativos, promovem ações solidárias, divulgam pesquisas científicas, defendem direitos humanos, ensinam arte, literatura e história, mas permanecem praticamente invisíveis nos ambientes digitais?
Quantas iniciativas importantes desaparecem diante de um vídeo ofensivo, de uma acusação irresponsável ou de mais uma exposição sensacionalista da miséria humana?
Há uma diferença entre não falar e não encontrar quem escute.
Não podemos, contudo, atribuir toda a responsabilidade aos algoritmos. Eles também respondem, ainda que de maneira complexa, aos nossos comportamentos. Cada compartilhamento, cada comentário e cada minuto dedicado a determinado conteúdo ajuda a compor o ambiente comunicacional que habitamos.
Somos espectadores, mas também participantes dessa construção coletiva.
Talvez esteja na hora de inverter algumas escolhas. Dar visibilidade a quem ensina. Compartilhar o trabalho de quem pesquisa. Valorizar quem constrói e reconhecer que uma palavra ponderada pode ter mais importância do que mil manifestações de fúria.
O velho Notícias Populares transmutou-se numa pequena caixa que incita o ódio, as diferenças e o jornalista somos todos nós. Eu vejo que uma sociedade começa a adoecer quando a ignorância se orgulha de fazer barulho e o conhecimento precisa se desculpar por existir.
(Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal HojeDiario.com).



