Intolerância, discriminação e desrespeito são palavras que, infelizmente, ainda marcam a vivência de muitas pessoas que professam sua fé em tradições historicamente marginalizadas no Brasil, especialmente as religiões de matriz africana. Nesta quarta-feira (21), data em que se celebra o Dia nacional de Combate à Intolerância Religiosa, o portal Hoje Diário ouviu a umbandista Vitória Karoliny Martins, de 20 anos, para dar visibilidade às experiências de quem vive essa realidade no dia a dia, denunciar barreiras enfrentadas no cotidiano e reforçar a importância do respeito entre diferentes crenças.
No município de Mogi das Cruzes, a diversidade religiosa se reflete em números expressivos. Segundo dados do último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 168.480 pessoas se declaram católicas, 127.136 evangélicas e 54.871 pertencem a outras religiosidades, incluindo as tradições de matriz africana. Apesar disso, membros dessas religiões ainda relatam episódios frequentes de preconceito e desinformação na cidade.
Dados do Painel da Ouvidoria nacional de Direitos Humanos mostram que, em 2024, foram registradas 2.472 denúncias de intolerância religiosa por meio do Disque Direitos Humanos (Disque 100). Entre os casos em que a religião da vítima foi identificada, praticantes de umbanda lideraram as denúncias, com 151 registros, seguidos por adeptos do candomblé, com 117 ocorrências. Outro recorte chama atenção: a maioria das vítimas é composta por mulheres, que somam 1.423 denúncias, evidenciando como a intolerância religiosa também se manifesta de forma desigual.
Para aprofundar esse cenário, a reportagem conversou com Vitória, moradora de Mogi das Cruzes e frequentadora de uma casa de umbanda desde 2023. Ela conta que seu primeiro contato com a religião aconteceu em um momento de fragilidade emocional, quando buscava acolhimento e respostas para questões pessoais. “Eu conheci a umbanda através da minha irmã, que começou a frequentar alguns terreiros e sempre dizia o quanto aquilo fazia bem para ela. Naquela época, eu estava passando por uma fase muito delicada da minha vida, no início de uma depressão, com a ansiedade sempre atacada, e resolvi conhecer a religião em busca de ajuda e acolhimento”, relatou.
Segundo Vitória, o impacto foi imediato. “Quando fui pela primeira vez, me encantei desde o início. Senti algo diferente, um cuidado e uma energia incríveis. Aos poucos, eu e minha irmã começamos a frequentar uma casa, e, nesse processo, fui me fortalecendo, me reencontrando e me curando, graças às entidades que me ajudaram e me ajudam até hoje”, afirmou. Ela destaca que, desde sua iniciação, a umbanda passou a ocupar um papel central em sua vida. “Ela representa acolhimento e cura. Foi através dela que encontrei apoio em um dos momentos mais difíceis que já vivi. Aprendi a olhar para mim com mais carinho, a entender meus sentimentos e a fortalecer minha fé”, completou.
Ao falar sobre intolerância religiosa, ela afirma já ter vivenciado diversas situações de preconceito, tanto no convívio familiar quanto em espaços públicos. “Infelizmente, já sofri muitas vezes e também já presenciei episódios de desrespeito. Já aconteceu em casa, em ambientes familiares, nas ruas e em locais que frequento. Muitas vezes, o preconceito vem por causa dos guias que uso no pescoço ou até em simples conversas, quando me perguntam qual é a minha religião. A partir daí, surgem olhares, caras e bocas e até frases preconceituosas. É horrível passar por esse tipo de situação”, desabafou.
Segundo ela, ser mulher dentro de uma religião de matriz africana é, ao mesmo tempo, um espaço de resistência e fortalecimento. “Ser mulher dentro dessa religião, para mim, é sinônimo de força e pertencimento. É estar em um espaço onde minha voz é ouvida, minha espiritualidade é respeitada e minha essência é valorizada”, destacou. Vitória também relaciona essa vivência ao preconceito direcionado a figuras femininas da umbanda. “A pombagira, por exemplo, é uma entidade muito julgada, mal interpretada e até chamada de demônio por quem não conhece a religião. Na umbanda, ela representa a força da mulher, a autonomia, o amor-próprio e o poder de decisão. O preconceito contra ela reflete exatamente o preconceito contra mulheres que fogem dos padrões impostos”, explicou.
Para ela, a intolerância contra religiões de matriz africana está diretamente ligada à falta de conhecimento e ao racismo estrutural. “Essas religiões sofrem preconceito por causa da desinformação, de uma história marcada pela criminalização e do racismo estrutural. Muitas pessoas julgam sem conhecer e reproduzem estereótipos, associando nossa fé a algo negativo, quando, na verdade, ela é baseada em respeito, ancestralidade e equilíbrio”, pontuou.
Ao encerrar, Vitória reforça a importância do diálogo e da educação para promover a convivência entre diferentes crenças e deixa uma mensagem para a sociedade. “Minha fé é baseada no amor, no respeito e no cuidado com o outro. Não peço que concordem, apenas que respeitem”, concluiu.

































