Nos últimos dias, uma pesquisa desenvolvida no Brasil ganhou destaque incomum na imprensa e nas redes sociais. A substância chamada polilaminina, associada a estudos em lesão medular, passou a ser descrita por muitos como uma possível “cura da tetraplegia”. O impacto emocional desse tipo de notícia é compreensível. Lesões da medula espinhal figuram entre as condições mais devastadoras da medicina, com profundo impacto físico, psicológico, familiar e social. Justamente por isso, é fundamental separar com cuidado o que é avanço científico real do que ainda é expectativa em construção.
A polilaminina é fruto de anos de pesquisa conduzida por um grupo brasileiro, liderado pela bioquímica Tatiana Coelho de Sampaio, e despertou interesse por sua possível atuação na modulação do ambiente inflamatório e no reparo do tecido nervoso após lesões medulares. Resultados iniciais em laboratório e em modelos experimentais levaram à autorização regulatória para a realização de um estudo clínico inicial em humanos. Esse passo, por si só, já representa um feito relevante para a ciência nacional, historicamente subfinanciada e pouco valorizada quando comparada aos grandes centros internacionais de pesquisa.
No entanto, é exatamente nesse ponto que a narrativa pública começa a se desviar do rigor científico. Um estudo clínico inicial, com poucos participantes, tem como principal objetivo avaliar segurança, dose e viabilidade do tratamento, além de observar sinais preliminares de benefício. Ele não é desenhado para comprovar eficácia definitiva, muito menos para estabelecer cura. Na hierarquia da evidência científica, trata-se de uma etapa necessária, mas ainda distante de conclusões amplas e generalizáveis.
Relatos individuais de melhora funcional, amplamente divulgados, merecem respeito, mas também cautela. Histórias pessoais não substituem estudos controlados. Pacientes com lesão medular podem apresentar variações clínicas ao longo do tempo, especialmente quando submetidos a reabilitação intensiva. Sem grupos de comparação adequados, não é possível afirmar com segurança que uma eventual melhora decorra exclusivamente da substância investigada. A ciência exige exatamente esse tipo de prudência para evitar falsas correlações e conclusões precipitadas.
Outro ponto frequentemente ignorado no debate público é a enorme heterogeneidade das lesões medulares. Tempo desde o trauma, nível da lesão, extensão do dano, idade do paciente e condições associadas influenciam de forma decisiva qualquer possibilidade de recuperação. Não há, até o momento, qualquer evidência de que a polilaminina seja aplicável a todos os tipos de lesão, especialmente às lesões crônicas de longa data, que representam a maior parte dos casos de tetraplegia no mundo.
Esse fenômeno de superexposição precoce não é exclusivo da neurologia. Na oncologia, área em que convivemos diariamente com esperança e sofrimento, já vimos inúmeras vezes terapias promissoras se transformarem em manchetes antes da hora. Algumas confirmaram seu valor com o tempo. Outras, não. O método científico existe justamente para proteger pacientes de frustrações, danos e falsas promessas, ainda que isso exija paciência e frustre expectativas imediatas.
Nada disso diminui a importância do que está sendo feito. Ao contrário. O avanço da polilaminina até um estudo clínico autorizado é motivo legítimo de orgulho e demonstra que o Brasil tem capacidade de produzir ciência relevante, inovadora e competitiva. O erro está em transformar uma linha de pesquisa em solução definitiva antes que o próprio processo científico permita essa conclusão.
A postura mais responsável neste momento é a do entusiasmo disciplinado. Reconhecer o potencial da pesquisa, apoiar sua continuidade e financiamento, mas comunicar com honestidade suas limitações atuais. Esperança é essencial na medicina, mas ela precisa caminhar junto com método, ética e verdade. Quando a ciência avança no seu tempo correto, os benefícios são reais, duradouros e, sobretudo, seguros para quem mais importa: os pacientes.
Se os próximos estudos confirmarem segurança e benefício clínico consistente, a polilaminina poderá, no futuro, representar um marco histórico na abordagem das lesões medulares. Até lá, o maior avanço talvez seja outro: aprender, mais uma vez, que boa ciência não se faz em manchetes, mas em silêncio, rigor e responsabilidade.
(Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal HojeDiario.com).



