Mês do Teatro: jovens de Mogi das Cruzes conciliam rotina e mantêm vivo o sonho de atuar

Março é considerado o mês do teatro, com destaque para o Dia Mundial do Teatro, celebrado nesta sexta-feira (27). Em Mogi das Cruzes, as jovens Alana Reis, de 20 anos, e Anna Luiza Fóffano, de 21, representam uma geração que mantém viva a conexão com a arte, mesmo diante da rotina intensa e dos desafios de seguir carreira na área.
Em entrevista ao portal Hoje Diário, as duas compartilharam suas trajetórias, experiências nos palcos e os sonhos que seguem em construção.

Desde muito cedo, Alana já sabia qual caminho queria seguir. “Desde que me lembro, meu maior sonho sempre foi trabalhar como atriz. Não me recordo de nenhum momento da minha vida em que quis seguir outra profissão. Na minha casa, sempre consumimos muitas novelas e filmes, então talvez esse ambiente tenha influenciado esse interesse”, conta.

Após o ensino médio, a jovem buscou formas de se profissionalizar na área. Chegou a considerar outras possibilidades, como um curso de cenografia e até Artes Cênicas, mas encontrou na Escola de Atores Wolf Maya, em São Paulo, o caminho mais alinhado com seu objetivo. “Sempre tive vontade de estudar na escola e sabia do reconhecimento que isso me traria, então foi a alternativa perfeita para a minha situação”, disse.

Hoje, a experiência na escola representa, para ela, um contato direto com o futuro que deseja construir. “Estudar na escola é como ter um gostinho do meu sonho todos os dias. Lá, temos experiências que só um profissional já inserido no mercado de trabalho teria, e convivemos com pessoas influentes e experientes na área. A estrutura da escola também é excepcional: temos um teatro completo à disposição dos alunos e um ensino quase profissional, com aulas de audiovisual”, explica.

Antes mesmo da formação atual, Alana já acumulava experiências no palco. Entre elas, a participação no espetáculo “Peter Pan”, durante o curso de teatro livre do SESI, e no musical “Cats”, apresentado na abertura de uma convenção de talentos no Rio de Janeiro. Mais recentemente, esteve em produções como “A Ratoeira” e em uma mostra de cenas baseadas na obra de Nelson Rodrigues.

A trajetória inclui ainda apresentações em diferentes espaços, como o Theatro Vasques, o Galpão Arthur Netto, escolas e o Teatro Nair Bello. Segundo ela, os espetáculos variam entre pagos e gratuitos.

Mesmo com o avanço na carreira, Alana não esconde os desafios de seguir na área. “Estudar teatro ampliou muito meu conceito de atuação. Aprendi, na prática, que ser ator em um mundo onde a arte é tão desvalorizada é uma luta diária, é resistência. Poucas pessoas realmente se mantêm na área, justamente pela dificuldade de viver de arte”, afirma.

Paralelamente à atuação, ela também cursa jornalismo, uma decisão pensada estrategicamente. “Eu sempre soube a importância de ter uma graduação além do teatro, justamente pela desvalorização desse meio. Tive muita dificuldade de escolher outro ramo de estudo que não estivesse relacionado à arte, mas, quando minha mãe sugeriu o jornalismo, pensei sobre e vi que seria a área que mais se encaixaria para mim”, disse.

A rotina, no entanto, exige organização e dedicação. “É tudo bem corrido, ainda mais com o tempo de viagem que gasto indo de uma cidade a outra. Normalmente, passo a tarde em aulas e ensaios e chego a tempo da faculdade no período da noite. Tento ao máximo me dedicar 100% às duas atividades e ter um bom resultado”, conta Alana. Ainda assim, o que sustenta essa escolha é claro: “Meu amor pela atuação sempre existiu e, para mim, nunca houve outra opção senão ser atriz. Sei que preciso passar pelo processo e que as dificuldades sempre estarão no caminho, mas não vejo um mundo em que elas não valham a pena para conquistar minha meta”, afirma.

Já para Anna Luiza Thomaz, o primeiro contato com o teatro aconteceu quando tinha 12 anos, em uma escola estadual, durante uma apresentação inspirada em “O Mágico de Oz”. Ao longo dos anos, ela buscou diferentes formas de se desenvolver na área. “Além da escola estadual, estudei na AJPS Escola de Artes, à qual sou eternamente grata, pois a maior parte da minha bagagem vem de lá. Fiz cursos como dublagem no Célia Helena, maquiagem e figurino na CPA e também teatro no Núcleo Ousadia, onde tive minha última experiência”, afirma.

As apresentações também fazem parte de sua trajetória, especialmente em espaços culturais da cidade. “Já me apresentei no Theatro Vasques pela AJPS, fiz apresentações no Circuito Cultural e no Núcleo Ousadia.” Segundo ela, os formatos variam de acordo com o projeto. “As apresentações na AJPS e no Núcleo Ousadia são pagas, pois todo o dinheiro é revertido para a escola. Já no Circuito Cultural, ocorre por edital, e todas as programações são gratuitas”, conta.

A pausa, segundo ela, veio após um momento mais delicado. “Passei por um momento da minha vida meio turbulento e precisei dar um tempo para cuidar mais de mim. Mas estou pesquisando cursos em São Paulo para poder voltar aos palcos e me aprofundar ainda mais”, relata. Mesmo assim, a conexão com a arte permanece. “Atualmente, sigo estudando por conta própria, além de participar de peças. O teatro sempre estará presente para mim, pois aprendemos muitas coisas que levamos para a vida: fala, trabalho em equipe, autoconhecimento e muito mais. Acho que é a alma artística, não consigo parar, não importa o que aconteça”, diz.

Além do teatro, Anna também encontrou nas redes sociais uma forma de expressão. Criadora de conteúdo, ela utiliza referências da atuação em suas produções. Para ela, o ambiente digital amplia o contato com outras pessoas que compartilham do mesmo interesse. “Meu maior sonho é criar uma comunidade para compartilhar todas as experiências artísticas. Já recebi relatos de pessoas que tentaram não seguir no teatro por conta do sistema em que vivemos, mas não conseguiram. Amo essa troca, e as redes estendem ainda mais isso”, explica.

Conciliar o teatro com a faculdade de publicidade e o trabalho na mesma área também faz parte da sua realidade. “Ambos se potencializam. Trazer o lado do teatro para a publicidade enriquece cada trabalho, e a publicidade ajuda a divulgar essa arte”, afirma.

Sobre o futuro, Anna mantém um olhar simples e direto: “Quero continuar me apresentando e, quem sabe, viajar pelo Brasil todo”. E completa: “Não consigo me imaginar fora disso”.

Apesar das trajetórias diferentes, as jovens atrizes compartilham o mesmo sentimento quando o assunto é o significado do teatro em suas vidas. Para Alana, “significa poder ser quem eu realmente sou. No teatro, posso viver quem eu quiser e ter experiências que nenhum outro lugar me proporcionaria”. Já para Anna, “é tudo, é quem eu sou. Representa liberdade, representa resposta”.

Para quem sonha em seguir esse caminho, elas deixam conselhos: “Não desanime. Já ouvi de muitas pessoas que o teatro não me levaria a lugar nenhum, que eu deveria fazer algo ‘de verdade’. Isso não existe: o teatro é real e é necessário para se manter vivo”, afirma Alana. Anna complementa: “Não importa o quanto tentem fugir, a arte sempre existirá dentro deles”.

Foto: Alana Reis / Arquivo Pessoal
Foto: Anna Luiza Thomaz / Arquivo Pessoal
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