Outro dia, ouvi alguém dizer: “na África é assim”. Fiquei pensando no tamanho dessa frase. Não pelo que ela diz, mas pelo que apaga.
A África não é um país. Nunca foi. E, ainda assim, insiste-se em tratá-la como se fosse um bloco único, homogêneo, como se seus mais de cinquenta países coubessem numa única ideia apressada. Talvez seja mais fácil simplificar do que compreender. Mas simplificar, nesse caso, é também reduzir, distorcer e, de certo modo, silenciar.
A África é atravessada pelo Equador e pelo Trópico de Capricórnio, e isso, por si só, já deveria nos impedir de qualquer generalização. Há desertos e florestas tropicais, savanas e regiões montanhosas. Há climas que queimam e climas que acolhem, estações que transformam paisagens inteiras. Há uma diversidade natural que desafia qualquer tentativa de síntese.
Mas não é só a geografia que é múltipla. São os povos, as histórias, as línguas. Centenas de idiomas ainda ecoam pelo continente, muitos deles carregando modos únicos de ver o mundo, de nomear a vida, de transmitir saberes. E, no entanto, muitos estão ameaçados de desaparecer, não por falta de valor, mas por falta de escuta, de pesquisa, de reconhecimento.
Há também a ancestralidade que resiste. Monumentos que atravessam o tempo, como as pirâmides, o Vale dos Reis e tantas outras cidades históricas que testemunham civilizações complexas, organizadas, sofisticadas. Lugares que nos lembram que a história da humanidade não começa nem termina onde muitas vezes aprendemos a olhar.
E, ainda assim, quando algo ruim acontece, diz-se apenas “na África”. Como se fosse um lugar só. Como se fosse sempre o mesmo cenário, a mesma história, o mesmo povo. Não é.
Falar da África exige mais do que uma palavra. Exige cuidado. Exige reconhecer que ali existem muitas Áfricas, coexistindo, dialogando, resistindo. Exige abandonar a ideia de unidade simplificadora para abraçar a riqueza de um continente inteiro.
Talvez o problema não esteja na África. Talvez esteja no nosso modo de olhar.
(Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal HojeDiario.com).




