Esse é o último texto de uma trilogia sobre desparasitação: já falamos da desparasitação mental, da emocional e agora damos mais um passo. Há um tipo de desordem que não se vê. Não aparece em exames, não se traduz facilmente em sintomas físicos, nem sempre encontra nome nas conversas cotidianas. Ainda assim, ela se instala — silenciosa — e, quando percebemos, já alterou a forma como existimos. É a desordem do espírito. Talvez porque, em termos espirituais, ainda sejamos profundamente desinformados. Sabemos nomear o corpo, começamos a compreender a mente, tateamos as emoções… mas o espírito — esse núcleo sutil da existência — muitas vezes é deixado à deriva, entre crenças frágeis, conceitos herdados e uma pressa constante que não permite aprofundamento. Sim, fica sempre nos escaninhos das práticas religiosas e não deixamos sair no dia a dia.
E onde não há consciência, há abertura. Abertura para ruídos, ilusões e distorções do que é essencial. Se, na mente, os parasitas se alimentam de informações desordenadas, e, nas emoções, de reações automáticas, no campo espiritual eles encontram terreno fértil na desconexão — desconexão de si mesmo, do sentido, do silêncio… sim, do silêncio, porque o espírito não grita. Ele sussurra. E, em um mundo onde tudo é barulho, o sussurro se perde. Então passamos a buscar fora aquilo que só poderia ser reconhecido dentro. Acumulamos frases prontas, discursos elevados, símbolos, rituais, conceitos… mas, sem vivência, tudo isso pode se tornar apenas mais uma camada — não de aprofundamento, mas de afastamento.
Há uma diferença sutil — e fundamental — entre espiritualidade e acúmulo espiritual: uma nutre, a outra pesa. E, às vezes, sem perceber, intoxicamo-nos de ideias “espirituais” que não atravessaram a experiência. Repetimos palavras sobre luz sem encarar as próprias sombras. Falamos de propósito sem sustentar presença. Buscamos conexão enquanto evitamos o encontro real conosco. Isso também é uma forma de parasitismo — não porque a espiritualidade em si seja nociva, mas porque tudo o que não é integrado pode ocupar espaço sem transformar. Talvez a desparasitação espiritual não seja sobre adquirir mais, mas sobre retirar excessos, silenciar o que é ruído travestido de verdade e desapegar do que foi incorporado sem consciência.
Porque o espírito, quando encontra espaço, organiza. Ele não exige performance, não precisa de validação, não se sustenta em aparência — ele apenas é. E, nesse “ser”, há uma espécie de inteligência tranquila: uma orientação que não grita, mas também não falha. Uma sensação de alinhamento que dispensa explicações longas, um reconhecimento íntimo de quando estamos próximos ou distantes de nós mesmos. Mas, para acessar isso, é preciso coragem: coragem para não saber, para questionar o que sempre foi dado como certo e para abandonar a necessidade de respostas imediatas, permanecendo por um tempo no território do silêncio — porque é no silêncio que o espírito respira. Talvez, no fim, desparasitar o campo espiritual seja um retorno radical à simplicidade: menos acúmulo, menos ruído, menos busca desesperada por fora; mais escuta, mais presença, mais verdade vivida — ainda que imperfeita. Porque o espírito não se revela no excesso, mas sim quando tudo aquilo que não somos começa, finalmente, a se dissolver.
(Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal HojeDiario.com).




