“Ela não consegue sair, e não é por falta de força”, por Neusa Freitas

A maioria das agressões contra mulheres acontece dentro de casa. Dados do Ligue 180, do Ministério das Mulheres, indicam que quase 70% das denúncias de violência são registradas no ambiente doméstico. Ainda assim, a pergunta que continua sendo feita é a mesma: “Por que ela não sai?”.

A resposta incomoda.
Porque sair nem sempre significa liberdade. Muitas vezes, significa risco. O momento da ruptura é um dos mais perigosos.
A violência quase nunca começa com o soco.
Começa no controle. No ciúme disfarçado de cuidado. Na roupa questionada. Na amizade interrompida. Na palavra que diminui.
Pesquisas mostram que milhões de mulheres já passaram por esse tipo de situação antes mesmo de qualquer agressão física. É um processo lento, silencioso e destrutivo.
Quando a violência aparece no corpo, ela já vinha acontecendo há muito tempo.

Quem está de fora enxerga uma saída.
Quem está dentro enxerga o perigo.
Perigo de apanhar mais.
De não ter para onde ir.
De não conseguir sustentar os filhos.
De enfrentar tudo sozinha.
De não sobreviver.
E esse medo não é exagero.

Os dados sobre feminicídio mostram que a maior parte dos crimes acontece dentro de casa e é cometida por alguém próximo. Em muitos casos, a mulher já havia tentado sair.
E, enquanto isso, existe outra dor que quase ninguém vê.
A dor de quem está ao lado.

De quem percebe.
De quem tenta ajudar.
De quem insiste.
De quem já não dorme direito há meses.
É desesperador ver alguém sendo destruída aos poucos e não conseguir tirá-la dali.

Mas é nesse ponto que muita gente erra.
Erra quando transforma dor em cobrança.
Quando troca acolhimento por julgamento.
Quando se afasta porque já tentou demais.
Quando solta a mão.

E, em muitos casos, essa mão faz toda a diferença.
Porque pode ser a ponte entre essa mulher e uma saída possível.
A mulher em situação de violência não precisa, no primeiro momento, de pressão.

Precisa de apoio.
Precisa saber que, se sair, não vai cair no vazio.
Que existe um lugar.
Que existe alguém.
Que existe uma chance.

Ninguém rompe esse ciclo no grito, muito menos sendo julgada.
Esse ciclo só se quebra quando existem condições reais para sair.
E, na maioria das vezes, essas condições começam na rede de apoio.

Às vezes, ela tenta sair e volta.
Depois tenta de novo.
E volta mais uma vez.
Isso revolta.
Cansa.
Frustra.
Mas não é fraqueza.
É o ciclo da violência se impondo mais uma vez.

Por isso, talvez a pergunta esteja errada.
Talvez não seja “por que ela não sai”.
Talvez seja outra:
Você está disposto a permanecer ao lado dela até o dia em que ela conseguir?
Porque ninguém vence isso sozinha.

E, muitas vezes, a diferença entre permanecer e conseguir sair…
é alguém que não soltou a mão.

(Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal HojeDiario.com).

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