“O dia em que seguimos como se nada tivesse acontecido”, por Neusa Freitas

Há uma parte da música Construção, de Chico Buarque, que sempre me incomodou: “morreu na contramão atrapalhando o tráfego”.
É uma frase seca. Quase cruel.
E dói justamente por isso.
Porque o que incomoda não é apenas a morte. É o que vem depois:
a pressa em limpar,
a urgência em seguir,
a vida tentando voltar ao normal como se nada tivesse acontecido.
No dia 6 de maio de 2025, vi uma cena que nunca saiu da minha cabeça.

Um homem morreu ao ficar preso entre a porta do trem e a plataforma, em São Paulo. Era por volta das 8h da manhã. Ele estava indo trabalhar,
como qualquer um de nós.

O nome dele era Lourivaldo.
Tinha 35 anos.
Era pai.
Tinha planos.
Mas, naquele momento, virou ocorrência.

O que me chocou não foi apenas o acidente.
Foi ver os trabalhadores da plataforma limpando aquele sangue,
limpando o que restou,
porque a vida precisava continuar.

E foi aí que pensei: quando foi que passamos a aceitar isso?
Não o acidente em si,
mas esse “depois”,
a rapidez com que tudo volta ao normal,
a facilidade com que seguimos.

A gente vê,
se choca,
comenta
e, logo depois, já está falando de outra coisa.

Não é maldade.
É cansaço mesmo.
É notícia demais.
Tragédia demais.
Problema demais.
Mas há um preço.

A gente vai se importando menos,
sem perceber,
até que a dor do outro já não nos atravessa como antes.
E isso é perigoso.

Porque, quando paramos de sentir, também paramos de reagir.
Paramos de cobrar.
Paramos de questionar.
Paramos de exigir mudança.

Quase um ano depois, ainda me pergunto:
o que mudou?
Mudou a segurança?
Mudou o cuidado?
Mudou a forma como olhamos para quem depende do transporte público todos os dias?
Ou apenas seguimos?
Seguimos rápido demais.

Como na música,
a morte vira detalhe,
atraso,
incômodo,
algo que precisa ser resolvido para que tudo volte ao normal.

Mas não deveria ser normal.
Não deveria ser aceitável.
Não deveria ser tão fácil seguir depois de ver o que vemos.
Talvez não consigamos parar tudo.
Mas também não podemos deixar de nos importar.
Porque, no fim, não é só sobre um homem.

É sobre nós.
Sobre o tipo de sociedade que estamos nos tornando:
uma sociedade que vê, sente por alguns minutos… e depois esquece.
E, quando nos acostumamos com tudo, perdemos a capacidade de nos indignar.
Perdemos também a capacidade de cobrar, de reagir, de proteger o outro e de exigir que vidas não sejam tratadas como interrupções no caminho.

E, quando isso acontece, não perdemos apenas a sensibilidade.
Perdemos humanidade.

(Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal HojeDiario.com).

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