Não foi uma data que me lembrou dela. Ela não precisa de calendário. Está antes disso — no chão que sustenta, no ar que não se vê, na água que insiste em correr mesmo quando esquecida. Há algo de silenciosamente insistente em sua presença, como se sua linguagem não dependesse da nossa capacidade de escuta.
Chamamos de Terra. Alguns preferem Gaia. Nomear, talvez, seja nossa tentativa de reduzir o incomensurável a algo que caiba no pensamento. Mas ela não cabe. Porque não é apenas o lugar onde estamos. É a condição do nosso estar.
Há uma inteligência discreta em sua dinâmica. Não uma inteligência que planeja, como gostaríamos de imaginar, mas uma que organiza, que equilibra, que faz emergir. Sob nossos passos, há camadas de tempo condensado em minerais. À nossa volta, ciclos que se repetem sem cansaço: germinar, crescer, florescer, transformar. E, ainda assim, seguimos como se fôssemos externos a isso…
Como se fosse possível habitar sem pertencer! Talvez por isso seja difícil reconhecê-la como mãe! Porque esperamos da maternidade algo que nos olhe, que nos responda, que nos nomeie. E ela faz tudo isso de outra maneira: sustenta o próprio fato de existirmos. Alimenta sem pedir, organiza sem anunciar, oferece sem contabilizar.
Há uma generosidade que não se impõe.
Basta observar com algum cuidado: a diversidade que persiste, as formas de vida que reaparecem, as paisagens que continuam a surpreender, como se houvesse sempre mais do que conseguimos prever. Mesmo onde julgávamos esgotamento, algo ressurge — discreto, mas suficiente… Não como milagre, mas como processo.
E talvez seja essa a sua maior lição, ainda pouco compreendida: não há pressa em sua lógica, porque ela não está submetida ao nosso tempo. Há continuidade.
Enquanto aceleramos, ela permanece.
Enquanto abstraímos, ela sustenta.
Neste Dia das Mães, enquanto celebramos aquelas que nos deram forma mais imediata, há uma outra presença que sustenta todas as outras. Não exige homenagem, não reivindica reconhecimento — porque não depende disso.
Ela antecede… E permanecer, no fim, não é apenas resistir, é sustentar o ser.
(Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal HojeDiario.com).


