Juliano Cazarré, ator da Globo e idealizador do curso presencial “O Farol e a Forja”, voltado ao público masculino, fez uma comparação sem base durante um debate na GloboNews ao misturar homicídios gerais de homens com números de feminicídio, criando uma equivalência que não existe.
O curso criado por Cazarré é anunciado como um encontro para homens, com temas como masculinidade, liderança, paternidade, vida profissional, saúde masculina e espiritualidade cristã. E, justamente por falar a esse público, com alcance e influência, a responsabilidade sobre o que se diz se torna ainda maior.
Ao comentar violência contra mulheres e feminicídio, o ator apresentou dados falsos ao vivo. E o episódio escancarou algo que deveria nos preocupar muito: em um debate jornalístico, a desinformação não pode circular como se fosse apenas opinião.
Não pode.
O problema não está em alguém pensar diferente. O problema começa quando uma fala sem base ganha espaço, alcance e aparência de verdade, especialmente diante de um tema tão grave quanto a violência contra mulheres.
E os números reais mostram exatamente o contrário do que foi dito.
Em 2025, o Brasil registrou 1.470 feminicídios, segundo dados consolidados do SINESP (Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública), do Ministério da Justiça e Segurança Pública. Já uma nota técnica do Fórum Brasileiro de Segurança Pública aponta 1.568 vítimas no mesmo ano, em razão da atualização das bases estaduais. Na prática, estamos falando de mais de quatro mulheres assassinadas por dia apenas por serem mulheres.
O Ligue 180 também registrou 1.088.900 atendimentos em 2025, um aumento expressivo em relação ao ano anterior. Quase 70% das agressões e mortes contra mulheres ocorreram dentro da residência da própria vítima, segundo levantamento nacional.
Então, não.
Não existe base séria para sustentar a afirmação de que mulheres matam mais homens do que homens matam mulheres. Misturar homicídios gerais com feminicídio não esclarece o debate.
Distorce.
Hoje, basta alguém falar com convicção para que milhares de pessoas passem a duvidar dos dados oficiais, da ciência, de instituições sérias e até do próprio jornalismo.
E isso é perigoso.
Achismo não vale o mesmo que pesquisa.
Convicção não vale o mesmo que evidência.
E dado falso não pode ser tratado como divergência.
Por isso, a contestação deveria ter sido imediata.
Em um programa jornalístico, especialmente em um debate ao vivo, informação falsa não pode ficar solta no ar.
Não pode ser tratada como opinião. Não pode esperar a repercussão nas redes.
Não pode ser corrigida apenas depois, quando o corte já circulou, quando a frase já viralizou e quando milhares de pessoas já foram expostas à desinformação.
Cabe à imprensa, no momento em que a mentira aparece, interromper, contextualizar e corrigir. Porque debate não é território livre para fake news.
E jornalismo não é palco para dado falso ganhar aparência de verdade.
Quando há jornalistas experientes conduzindo uma conversa, a responsabilidade é ainda maior. A audiência confia que alguém ali vai separar fato de opinião, dado de achismo, evidência de mentira. Se isso não acontece, o programa não apenas informa mal.
Ele ajuda a espalhar desinformação.
E talvez uma das marcas mais perigosas do nosso tempo seja esta: a mentira não precisa convencer totalmente.
Basta gerar dúvida.
Dúvida sobre a imprensa. Sobre pesquisas. Sobre instituições. Sobre a própria realidade.
E, quando isso acontece, a verdade passa a disputar espaço com cortes de internet, vídeos emocionados e frases ditas sem responsabilidade.
A reação da atriz Leandra Leal, depois do episódio, trouxe uma discussão necessária sobre o papel do jornalismo diante da desinformação ao vivo.
Porque hoje a imprensa não trabalha apenas para informar.
Trabalha também para conter danos.
Para impedir que absurdos sejam embalados como opinião legítima.
Para lembrar que liberdade de expressão não é salvo-conduto para espalhar mentira sem contestação.
Enquanto a mentira viraliza em segundos, a verdade ainda precisa fazer o caminho mais difícil: ouvir especialistas, checar dados, contextualizar informações e tentar alcançar quem já foi capturado pela desinformação.
Chegamos a um ponto em que muita gente parece acreditar mais em influência do que em informação.
Mais em cortes de redes sociais do que em anos de estudo.
Mais em opinião do que em fatos.
E talvez o episódio da GloboNews revele exatamente isso.
O problema nunca foi alguém ter opinião.
O problema começa quando discursos públicos ignoram o tamanho da responsabilidade que carregam ao alcançar milhões de pessoas.
E quando o jornalismo, diante da mentira, demora mais do que deveria para dizer, com todas as letras: isso não é verdade.
(Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal HojeDiario.com).




