O caso da jogadora Sarah Aysha chamou atenção nesta semana após a atleta do São Paulo denunciar ofensas misóginas durante uma partida do Campeonato Brasileiro Feminino Sub-20.
Mas talvez a discussão mais importante não esteja apenas no futebol.
Porque o machismo raramente aparece apenas nas agressões explícitas.
Na maior parte do tempo, ele se esconde nas pequenas tentativas diárias de descredibilizar mulheres.
Está no “ela está de TPM”.
No “mulher é muito emocional”.
No “deve estar louca”.
No homem que interrompe uma profissional para explicar exatamente aquilo que ela domina.
Na mulher com formação que expõe seu parecer e ouve: “Você acha?”, “Tem certeza?” ou “Imaginei que você ficaria angustiada”.
Não é achismo.
É conhecimento.
Não é angústia.
É observação sobre causa e consequência.
Mas, muitas vezes, o conhecimento técnico feminino ainda parece precisar passar pela validação masculina antes de ser considerado legítimo.
Está na mulher que precisa repetir uma ideia até que um homem diga a mesma coisa para que ela seja, finalmente, levada a sério.
O machismo moderno, muitas vezes, não grita.
Ele desacredita.
Ele diminui.
Ele ironiza.
Ele quer fazer mulheres duvidarem da própria autoridade.
Sarah Aysha tem 20 anos. Nasceu em Davinópolis, no Maranhão. Começou a jogar futebol ainda criança, aos 8 anos, em escolinhas masculinas. Passou por um projeto social, saiu do Nordeste em busca de oportunidade, chegou ao Fluminense ainda adolescente e hoje veste a camisa do São Paulo como uma das promessas do futebol feminino brasileiro.
Ela venceu a distância.
A estrutura precária.
A falta de incentivo.
O preconceito contra meninas no futebol.
E, mesmo assim, ainda precisou lidar com misoginia dentro de campo.
Talvez por isso muitas mulheres tenham se identificado com o choro de Sarah Aysha.
Porque muitas não enxergaram apenas uma jogadora chorando em campo.
Enxergaram a si mesmas.
Enxergaram anos sendo interrompidas no meio de uma fala.
Tendo o próprio conhecimento tratado como exagero.
Sendo chamadas de emocionais ao demonstrar firmeza.
Sendo desacreditadas mesmo quando têm formação, experiência e preparo.
O futebol brasileiro já mostrou outras vezes como isso aparece quando mulheres ocupam espaços de autoridade.
Em fevereiro deste ano, após a eliminação do Red Bull Bragantino para o São Paulo, o zagueiro Gustavo Marques afirmou que “não adianta colocar mulher para apitar um jogo desse tamanho” ao criticar a árbitra Daiane Muniz.
A frase diz muito mais sobre a sociedade do que sobre o futebol.
O futebol apenas escancarou um comportamento que mulheres enfrentam em praticamente todos os ambientes profissionais.
Porque parte da ideia de que a competência feminina ainda precisa ser validada o tempo inteiro.
Como se autoridade tivesse gênero.
Como se mulheres precisassem provar mais para ocupar exatamente o mesmo espaço.
Isso acontece fora do esporte todos os dias.
Na médica que precisa ouvir um paciente perguntar se não há “um médico homem” disponível.
Na jornalista interrompida no meio da pergunta.
Na executiva chamada de “agressiva” por ter postura firme, enquanto homens na mesma posição são vistos como líderes.
Na mulher que é desacreditada porque “deve estar nervosa”.
Na profissional que fala duas vezes mais para receber metade da credibilidade.
O futebol feminino cresceu.
As atletas ganharam visibilidade.
Os campeonatos ganharam audiência.
Mas o machismo continua sentado na arquibancada, nos bastidores e, muitas vezes, dentro do próprio campo.
Sarah não chorou apenas por uma ofensa.
Ela chorou pelo desgaste.
Pelo acúmulo.
Pela exaustão de ainda precisar enfrentar algo que mulheres enfrentam há tempo demais.
E o mais perigoso é quando isso passa a ser tratado apenas como “cabeça quente”.
Não é.
Cabeça quente não inventa misoginia.
Só revela o que muita gente ainda considera normal dizer quando perde o filtro.
E talvez diga muito sobre a nossa sociedade o fato de uma partida precisar ser paralisada para que uma mulher seja respeitada.
Porque o problema nunca foi apenas o futebol.
O problema é uma sociedade que ainda estranha mulheres ocupando espaços de autoridade sem pedir licença.
O machismo não vive apenas nas grandes agressões.
Ele continua sobrevivendo nas pequenas desqualificações cotidianas que muita gente ainda insiste em chamar de “normal”.
(Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal HojeDiario.com).






