“Os profetas do algoritmo”, por Luci Bonini

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Todos os dias ficamos sabendo que o mundo vai acabar amanhã. Um terremoto devastador, um eclipse que mudará a humanidade, uma guerra definitiva, três dias de escuridão, uma invasão extraterrestre ou qualquer outro acontecimento extraordinário capaz de prender nossa atenção por alguns minutos. Se todas essas previsões tivessem se concretizado, provavelmente já não estaríamos aqui para comentá-las.
Durante séculos, os profetas ocupavam templos, praças ou escreviam livros. Hoje, eles habitam um espaço gigantesco: as redes sociais. E, ao contrário do que muitos imaginam, quem decide quais mensagens chegarão até nós não é necessariamente a verdade, mas um conjunto de algoritmos programados para manter nossa atenção pelo maior tempo possível. O algoritmo não sabe distinguir o verdadeiro do falso. Ele apenas identifica aquilo que desperta emoções intensas. E poucas emoções são tão eficazes quanto o medo.

Então, tenho visto que mesmo um texto que traga uma análise equilibrada sobre mudanças climáticas ou até mesmo explique cientificamente o que seja um abalo sísmico ou a erupção de um vulcão desperta menos interesse do que um vídeo anunciando que um grande terremoto destruirá o Brasil ou que um fenômeno celeste marcará o fim da civilização. O medo gera curiosidade. A curiosidade produz cliques. Os cliques aumentam a audiência e, obviamente, tudo isso se transforma em prestígio nas redes, influência e dinheiro.
Embora o algoritmo seja recente, o ser humano do nosso passado, sobreviveu porque prestava mais atenção aos perigos do que às boas notícias: uma nuvem que poderia trazer uma tempestade, caminhar numa floresta exigia ficar atento aos predadores e assim por diante. Nosso cérebro aprendeu a dar prioridade às ameaças. Os algoritmos apenas descobriram como explorar essa antiga característica da natureza humana.

Recentemente, uma vidente brasileira ganhou enorme repercussão ao prever que a seleção brasileira seria abduzida durante uma partida disputada na Copa do Mundo. Evidentemente, nada aconteceu. A seleção entrou em campo, disputou o jogo e nada aconteceu, a vidente foi esculachada, os incrédulos riram, e os que acreditaram ficaram decepcionados, afinal, com a promessa de abertura dos arquivos extraterrestres isso seria fantástico.
Esse talvez seja um dos fenômenos mais curiosos da internet: previsões que não se cumprem desaparecem rapidamente da memória coletiva, enquanto novas previsões ocupam imediatamente o seu lugar. O ciclo recomeça como se os erros anteriores jamais tivessem existido.

A recente tragédia na Venezuela oferece outro exemplo preocupante. Bastaram as primeiras notícias sobre o terremoto para que surgissem vídeos anunciando que o Brasil seria o próximo país atingido por um desastre semelhante. Entendo que a palavra terremoto sendo usada para os fatos, elevou o algoritmo e quem não tinha o que fazer, criou alarmes falsos, estudos e professoras usando a tag #terremoto, porque assim o algoritmo ia entender que era importante.

Eu não sou contra as profecias, mas acredito que precisamos dar crédito à ciência. Ir em busca de informações científicas. As bases de dados de resultados científicos são imensas. Teríamos como aproveitar isso para o nosso dia a dia. Isso não significa abandonar a espiritualidade, a fé ou o respeito pelas diferentes tradições religiosas.
Entendo que o dom da profecia deve existir, só que o problema começa quando previsões espetaculares passam a substituir o pensamento crítico e o conhecimento produzido com responsabilidade. Temos um acesso incrível à informação e, ao invés de escolhermos a informação que pode nos dar mais qualidade de vida, escolhemos o medo.

Antes de compartilhar o próximo vídeo alarmista, talvez valha a pena fazer uma única pergunta: quem ganha quando eu sinto medo? Em muitos casos, essa simples reflexão já é suficiente para distinguir informação de manipulação.

(Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal HojeDiario.com).

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