“As gaivotas”, por Luci Bonini

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Um dia, estava na praia observando as gaivotas. Havia muitas. Algumas voavam tão alto que, por alguns instantes, pareciam imóveis no céu. Outras desciam rapidamente, quase tocavam a água e tornavam a subir. Vistas de longe, eram uma espécie de coreografia sobre o mar. Não precisavam de maestro, ensaio ou plateia. Voavam simplesmente porque podiam voar.

Fiquei algum tempo olhando para elas.

Talvez haja poucas imagens tão bonitas quanto a de uma ave aproveitando o vento. Ela não luta contra ele o tempo inteiro. Abre as asas, percebe sua direção, deixa-se levar por alguns metros e, quando necessário, muda o movimento. Há inteligência naquela aparente leveza.

Naquela manhã, porém, outra cena começou a chamar minha atenção.

A praia foi ficando cheia. Chegaram famílias, crianças, guarda-sóis, cadeiras, caixas térmicas. Vieram os sanduíches, os biscoitos, as frutas, os salgadinhos. E as gaivotas, antes tão interessadas no céu e no mar, começaram a se aproximar das pessoas. Primeiro, mantinham certa distância…

Depois, uma delas percebeu alguma coisa caída na areia e desceu. Outra veio logo atrás. Em pouco tempo, várias estavam caminhando entre os grupos, atentas a qualquer resto de comida.

O céu continuava lá… O vento também… O mar permanecia imenso diante delas.

Mas, naquele momento, parecia mais interessante disputar uma sobra de sanduíche. Foi inevitável pensar nas pessoas. Conhecemos algumas assim. Pessoas que têm asas, mas preferem viver de restos.

E não estou falando de comida…

Há quem viva das sobras da atenção alheia. Quem se aproxime somente quando percebe alguma vantagem. Quem circule em torno das pessoas esperando o momento em que alguma coisa possa cair da mesa: uma oportunidade, uma informação, um favor, uma influência, um benefício qualquer.

Enquanto existe alguma coisa a oferecer, permanecem por perto. Quando termina, levantam voo…

Não necessariamente porque sejam más. Talvez tenham apenas aprendido a sobreviver dessa maneira. Afinal, descobrir onde há alimento disponível exige certa inteligência. O problema começa quando a sobrevivência se transforma em modo de existência.

Porque uma coisa é aproximar-se de alguém para compartilhar a mesa. Outra é aproximar-se apenas para recolher o que dela cair.

Voltei a olhar para as gaivotas. Algumas disputavam pequenos pedaços de comida com uma agressividade surpreendente. Corriam umas atrás das outras por migalhas que, minutos antes, nem sequer existiam naquele lugar.

E pensei em quantas disputas humanas também acontecem por migalhas.

Migalhas de prestígio…

Migalhas de poder…

Migalhas de reconhecimento…

Migalhas de afeto…

Migalhas de pertencimento…

Às vezes, gastamos uma quantidade enorme de energia disputando coisas pequenas apenas porque alguém nos convenceu de que são valiosas. Corremos, empurramos, atacamos, competimos — e quase nunca paramos para perguntar se aquilo merece realmente nossas asas.

Talvez essa seja uma das armadilhas da vida: acostumar-se tanto às migalhas que nos esquecemos de olhar para cima. Porque voar dá trabalho. É preciso enfrentar o vento, calcular distâncias, procurar caminhos. É preciso aceitar que nem sempre haverá alguma coisa pronta esperando por nós.

As migalhas, ao contrário, parecem fáceis… Basta ficar por perto… Basta observar… Basta esperar que alguém deixe cair alguma coisa.

Mas existe um preço silencioso nessa facilidade: aos poucos, pode-se esquecer da própria capacidade de buscar horizontes…

(Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal HojeDiario.com).

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