Passadas as eleições, independentemente de quem ocupe a Presidência da República, existe uma área em que o Brasil não pode se dar ao luxo de recomeçar do zero a cada quatro anos: a saúde. O Sistema Único de Saúde talvez seja uma das maiores conquistas sociais do país. E muitas vezes só percebemos o tamanho do SUS quando precisamos dele.
É o SUS que está por trás da vacinação, das unidades básicas de saúde, do SAMU, dos tratamentos contra o câncer, dos transplantes, da distribuição de medicamentos, da vigilância sanitária e epidemiológica e de boa parte da resposta brasileira às grandes emergências de saúde.
Mesmo quem possui plano de saúde utiliza o SUS, direta ou indiretamente.
Nos últimos anos houve avanços importantes. A atenção primária voltou a crescer, houve ampliação das equipes de Saúde da Família e investimentos em novas unidades. A digitalização também avançou, com prontuários eletrônicos, telessaúde e maior integração das informações dos pacientes.
Mas reconhecer os avanços não significa fechar os olhos para aquilo que ainda funciona mal.
E talvez o principal problema que o próximo governo precise enfrentar seja um velho conhecido dos brasileiros: o tempo de espera.
Não basta dizer que o atendimento é universal se uma pessoa espera meses por uma consulta com especialista, por uma ressonância, por uma biópsia ou por uma cirurgia. Em algumas doenças, especialmente no câncer, tempo não é apenas desconforto. Tempo pode significar mudança de estágio da doença, redução das possibilidades de cura e, em determinadas situações, diferença entre viver e morrer.
Precisamos finalmente construir filas mais transparentes, regionalizadas e organizadas de acordo com critérios clínicos. O paciente não pode desaparecer dentro do sistema enquanto espera.
Outro enorme desafio será o financiamento.
O Brasil está envelhecendo. Teremos proporcionalmente mais idosos, mais câncer, doenças cardiovasculares, diabetes, demências e outras doenças crônicas. Ao mesmo tempo, surgem medicamentos, exames e tratamentos cada vez mais eficazes — e também cada vez mais caros.
Essa conta precisa ser discutida com seriedade.
Não adianta simplesmente colocar mais dinheiro sem melhorar gestão, indicadores, produtividade e integração entre União, estados e municípios. Mas também é ingenuidade imaginar que conseguiremos oferecer uma medicina cada vez mais complexa para uma população mais velha sem financiamento adequado.
O próximo passo do SUS também precisa ser tecnológico.
O brasileiro deveria poder atravessar o país e ter seu histórico médico, exames, medicamentos e atendimentos disponíveis de maneira integrada e segura. A saúde digital avançou, mas ainda convivemos com sistemas que muitas vezes não conversam entre si.
Também precisamos fortalecer a atenção básica. Um bom sistema de saúde não é aquele que constrói hospitais indefinidamente. É aquele que consegue evitar que parte das pessoas precise chegar ao hospital.
Controlar hipertensão e diabetes, aumentar a vacinação, combater obesidade e tabagismo, rastrear adequadamente alguns tipos de câncer e diagnosticar doenças precocemente custa menos e, principalmente, salva mais vidas.
Há ainda um desafio sobre o qual falaremos cada vez mais: preparar o SUS para uma população envelhecida e para novas ameaças. Mudanças climáticas, epidemias, saúde mental, dependência digital e até problemas relacionados às apostas estão criando demandas que praticamente não existiam na dimensão atual quando o SUS foi concebido.
Por isso, o debate sobre saúde para os próximos quatro anos não deveria ser se precisamos ou não do SUS.
Precisamos.
Podemos discutir seu tamanho, financiamento, modelo de gestão, participação da iniciativa privada, metas, eficiência e inúmeras formas de torná-lo melhor. Isso faz parte da democracia.
Mas imaginar um Brasil sem um sistema público universal de saúde é desconhecer a realidade brasileira. Dezenas de milhões de pessoas simplesmente não teriam condições de financiar individualmente uma internação, um tratamento oncológico, uma UTI ou um transplante.
Só uma visão completamente desconectada da realidade poderia defender simplesmente acabar com o SUS sem apresentar uma alternativa capaz de atender mais de 200 milhões de brasileiros.
O desafio do próximo presidente não será inventar outro sistema.
Será fazer o SUS que já temos funcionar melhor: menos fila, mais prevenção, diagnóstico mais rápido, melhor gestão, tecnologia integrada, financiamento responsável e acesso semelhante independentemente do CEP onde o brasileiro nasceu ou vive.
O SUS não pertence a um presidente, a um partido ou a uma ideologia.
O SUS pertence ao Brasil.
E o próximo governo deveria receber uma missão muito simples de compreender — embora extremamente difícil de executar:
preservar o que funciona, corrigir o que não funciona e preparar o SUS para os próximos 30 anos.


