Vida e morte constituem verdadeiros mistérios, cuja impossibilidade de se revelarem plenamente impõe limites ao nosso entendimento acerca do que representam, seja do ponto de vista da ciência ou de qualquer crença ou religião. A busca pela compreensão sobre a vida, por óbvio, está diretamente associada ao fato de estarmos vivos. Isso nos permite investigar cientificamente a respeito de suas condições e de todo seu processo evolutivo, até encontrarmos os meios para que possamos prolongá-la cada vez mais.

Já sobre a morte, especulamos sobre suas consequências, muito mais baseados na fé do que na ciência, uma vez que essa não costuma imiscuir-se pelos meandros do improvável e, quando cessam os elementos objetivos para a definição da vida, não há o que se investigar para além da falência dos órgãos e das inapropriadas condições físico-químicas que permitem a existência da vida. Com as naturais exceções de praxe, a vida é sempre celebrada, enquanto a morte é sempre lamentada. Por mais que existam antagonismos a respeito da vida e da morte, determinadas crenças não as distinguem, fazendo de ambas um fluxo contínuo material e espiritualmente.

Entretanto, até mesmo a fé no sobrenatural não nos impede, a rigor, de temer a morte, pois ela é carregada de incertezas, pois não depende de uma única variável e produz diferentes desdobramentos. Não me atrevo a navegar por mares desconhecidos para não correr o risco de naufragar. Contudo, arrisco registar aqui algumas inquietações sobre como seria a vida sem a morte.

José Saramago, prêmio Nobel da Literatura, escreveu “As intermitências da morte” e no livro se veem os desdobramentos da ausência da morte e dos efeitos disso sobre a humanidade. Se ninguém morre, como fica a esperança? Quais seriam nossos atos a julgar pela ausência da fatalidade última, que é deixar de existir? Seríamos mais civilizados que “bárbaros”? Reinaria o sentimento do tudo pode? Ou, pelo contrário, buscaríamos um modo de vida regrado na infinitude da presença humana sobre a terra?

Como é possível notar, há mais perguntas do que respostas, como sempre acontece quando o objeto de nossa análise foge à compreensão mais profunda. A ideia de continuar vivendo mesmo após a morte carrega muitos vícios baseados naquilo que é a nossa experiência enquanto seres viventes. No entanto, acredito que o mistério insondável da morte é para nós um alívio, pois nos faz viver de esperança em esperança. E mesmo quando somos confrontados pela quebra de expectativas em razão de uma verdade descoberta, não nos faltará uma nova esperança. Embora viver seja perigoso, como afirmou Guimarães Rosa, esse perigo é nosso maior desejo. Celebremos, pois, não somente a vida, mas também a morte. Sem a última, creio que a primeira seria insuportável.

(Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião do HojeDiário.com)

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