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“Quinta coluna”, por Marcelo Candido

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Não é incomum que se tragam à política elementos de análise próprios a situações de guerras. Assim como na guerra, na política existem fatores que tornam a vitória possível somente quando a estratégia colocada a serviço se mostra acertada. Então, para vencer uma guerra ou uma eleição, por exemplo, convém observar menos aquilo que é explícito diante dos olhos e mais aquilo que possa não estar à vista. Prestar atenção já é um bom começo, pois assim se podem perceber os pilares que sustentam uma boa ou uma má estratégia.

No primeiro caso, manter a sustentação pode resultar em um grande sucesso a quem lhe construiu; já no segundo, pode dar ao inimigo o direito de aproveitar-se do erro para manter em desvantagem quem entende que está em posição oposta. Anote: ganhar ou perder depende menos do desejo do que de estratégias notáveis.

Não há na história registros que não tenham por base um conjunto vigoroso de variáveis que permitiram a muitos estrategistas vencerem tanto guerras quanto eleições. E é indiscutível que somente aqueles que entenderam os princípios da guerra e da política tornaram-se grupos vencedores, exceto em raríssimos casos. “Toda força bruta representa nada mais do que um sintoma de fraqueza”, ensinou o cantor e compositor Zé Geraldo na canção “Como diria Dylan”.

Entretanto, esse sintoma de fraqueza transpassou os anos de 1936 e 1939 durante a Guerra Civil Espanhola, fazendo este conflito, entre outros estragos, ferir gravemente a Espanha e se tornar laboratório de práticas que viriam a se mostrar decisivas para as táticas bélicas que foram adotadas entre os anos de 1939 e 1945, período da Segunda Guerra Mundial. Ademais, os horrores da guerra estenderam-se tacitamente ao longo do período da chamada Guerra Fria, até alcançar a simbólica queda do “Muro de Berlim”, que urgiu o dito colapso da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Isso tudo ajudou a moldar o “Breve Século XX”, na forma como interpretado pelo historiador Eric Hobsbawm, como o século das grandes e sanguinárias guerras.

Durante a Guerra Civil Espanhola foi criada a expressão “Quinta Coluna” que doravante ganhou espírito próprio, tornando-se sinônimo de traição. Sua constituição abarcava pessoas que aparentemente atuavam dentro de Madrid como aliados da República, mas que, no entanto, colocavam-se ao lado do golpismo fascista do General Francisco Franco, formando internamente uma coluna de traidores que se somaria àquelas advindas de fora da cidade.

Tal estratégia foi fundamental para o impulso da ditadura que dali nasceria. O exército fascista cercava a capital espanhola marchando em quatro colunas, na tentativa de vencer a batalha que favoreceria o início da tomada do poder, que viria a durar por quase quatro décadas, inaugurando um período em que os direitos democráticos foram praticamente extintos e a violência foi adotada como política de Estado. Ditadura que só caiu em meados da década de 1970, fato que imediatamente levou às ruas jovens embriagados de felicidade que acabaram por criar o movimento de contracultura eternizado como “Movida Madrileña”.

Os traidores então infiltrados dentro de Madrid passaram a ser conhecidos como membros da “Quinta Coluna”, oferecendo aos esforços pelo golpe as condições para que ele também ocorresse de dentro para fora da capital espanhola. Eram como uma espécie de Cavalos de Tróia soltos pelo pasto. Aliás, as próprias forças do General Franco exaltavam o papel dos traidores ao afirmarem a importância decisiva da “Quinta Coluna” atuando a partir das entranhas de Madrid, pois ela foi determinante para o triunfo do golpe alavancado pela guerra.

O escritor Ernest Hemingway redigiu em meio à guerra sua única peça teatral intitulada “A Quinta Coluna”, emulando o sentido desta estratégia como algo terrível e ao mesmo tempo fundamental ao sucesso de uma empreitada belicosa. Em 1937, o monumental artista Pablo Picasso retratou em tela o horror dos bombardeios promovidos pelos fascistas naquele ano sobre a cidade espanhola de Guernica, destacada como campo de testes a pilotos e maquinarias de guerra da Alemanha nazista, apoiadora de Franco. A obra foi intitulada “Guernica” e tornou-se “uma declaração de guerra contra a guerra e um manifesto contra a violência”.

Alinhavando-se todos esses acontecimentos que marcaram a história das guerras, da política e da cultura ocidental no século XX, é possível chegar à constatação mais comezinha de que em muitos casos o inimigo pode estar bem ao nosso lado. Ou seja, construindo sorrateiramente sua estratégia tentando não promover visivelmente a vitória de quem ele realmente deseja, e sim, derrotar antes o suposto inimigo dentro do seu próprio território.

Porém, não se engane “quinta coluna” contemporânea e mal diagramada! A guerra sequer está começando. Só não percebe a existência dessas figuras infiltradas quem não quer, ou quem com elas está mancomunado, formando, portanto, uma única coluna de traidores. O futuro não pertence aos traidores, é assim desde tempos imemoriais; tampouco aos ingratos e desprezíveis sujeitos que contaminam a política, movidos pelas artimanhas mais execráveis em contraponto a quem deseja respirar ares de democracia e de justiça, e não os odores da guerra.

Aos traidores de ontem e de hoje vale dedicar a célebre sentença, sem, contudo, acreditar nela como única condição, invocada por “La Pasionaria”, líder revolucionária espanhola, contra os golpistas comandados pelo General Franco: “Para viver de joelhos, é melhor morrer de pé”. Acredito candidamente que nossos territórios brevemente celebrarão suas próprias e belas “Movidas”. Os traidores não passarão!

(Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do HojeDiario.com)