Dona Yayá: memória de Mogi das Cruzes, silenciamento feminino e resistência no Dia Internacional da Mulher; conheça-a

Em celebração ao Dia Internacional da Mulher, comemorado neste domingo (08), o portal Hoje Diário conversou com o historiador mogiano Glauco Ricciele para resgatar a trajetória de Sebastiana de Mello Freire, de Mogi das Cruzes, conhecida como Dona Yayá, e dar a devida importância a uma história que não pode ser apagada pelo tempo. Isso porque Yayá se tornou uma figura de resistência e é lembrada até hoje com carinho.

Mogiana, nascida em 1887, Yayá foi herdeira de uma das famílias mais influentes da Primeira República: Mello Freire.
Filha de Manoel Almeida de Mello Freire, que hoje dá nome a uma das principais vias de Mogi das Cruzes, empresário, fazendeiro e senador, cresceu em meio ao prestígio social, mas também cercada por tragédias. Ainda criança, perdeu irmãos; aos 13 anos, ficou órfã de pai e mãe em um intervalo de apenas dois dias; e, aos 18, viu o único irmão restante morrer durante uma viagem. Sozinha, passou a viver sob a tutela de uma figura política de destaque da época, responsável por administrar sua fortuna.

Educada nos moldes da antiga elite paulistana, Yayá falava francês, tocava piano, viajou à Europa e cultivava o gosto pela fotografia, característica pouco comum para mulheres no início do século 20. Independente, religiosa e socialmente atuante, levava uma vida que destoava dos padrões femininos tradicionais.

Segundo o historiador, em 1919 começaram a surgir relatos de desequilíbrio emocional e, no ano seguinte, um laudo médico a declarou incapaz de administrar a própria vida e seus bens.
Aos 33 anos, foi interditada judicialmente. Inicialmente internada, acabou sendo levada para um casarão na rua Major Diogo, no bairro Bela Vista, em São Paulo, onde viveria reclusa por mais de quatro décadas, local que hoje se tornou um monumento na capital paulista, segundo Ricciele.

Os registros médicos mencionavam quadros como “síndrome maníaco-depressiva” e “demência precoce”. Nunca houve revisão judicial que lhe devolvesse a autonomia.
Dona Yayá morreu em 1961, aos 74 anos. Sem herdeiros reconhecidos, seus bens foram destinados majoritariamente à Universidade de São Paulo (USP). A casa onde viveu confinada hoje é patrimônio cultural e abriga o Centro de Preservação Cultural da USP.

Para o historiador Glauco Ricciele, revisitar a trajetória de Yayá é essencial para compreender como mulheres que fugiam aos padrões sociais podiam ser silenciadas e mal compreendidas.

Pensando nisso, em Mogi das Cruzes, um grupo de mogianos estreou neste ano o Bloco Cultural e Carnavalesco “Filhos de Yayá”, no Carnaval de rua. O bloco nasceu com a proposta de fortalecer o Carnaval na cidade e resgatar aspectos culturais e históricos, evidenciando a trajetória de Yayá, reencontrando raízes e valorizando aquela que ajudou a construir a história da cidade.

Foto: Reprodução/Redescubra Mogy das Cruzes
Foto: Reprodução/Redescubra Mogy das Cruzes
Foto: Reprodução/Redescubra Mogy das Cruzes
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