Em nossos dias, em relação à espiritualidade, assiste-se, por parte de alguns grupos religiosos, quase que a uma obsessão e até a uma inconsciente competição acerca da penitência quaresmal, dando a impressão de que essa mortificação é a finalidade primeira e última dessa caminhada. Dá-se até a impressão de que ganha a “salvação” quem consegue fazer a penitência por mais tempo, como se Deus estivesse ansiosamente à espera desse sofrimento voluntário e expiatório.
Diferentemente dessa realidade, não podemos nos esquecer de que há, em nosso contexto, pessoas que não têm nem como escolher uma penitência, muito menos um jejum e/ou abstinência, pois mal conseguem escolher a própria comida e mistura, muito menos uma penitência, já que vivem uma penitência real, sem possibilidade de escolha. Às vezes, na família, no bairro ou no trabalho, convivem com violência, roubo, injustiça, miséria, humilhação, etc.
Isso não significa relativizar, muito menos apequenar o valor das penitências quaresmais, mas dar-lhes o valor devido e justo. Qual sentido teria fazer jejum da boca sem a mudança do coração? Grupos semelhantes a esses, que se identificam pelo que é aparente, pela rigidez superficial, foram os mais hostis a Jesus e ao seu ensinamento. Nesse sentido, vale lembrar que Jesus também teve uma postura proporcionalmente mais dura com eles do que com os pecadores.
O que isso nos ensina? Que essa “aparente” religiosidade esconde, muitas vezes, uma crueldade desumana, oculta e demoníaca, que quer distância de Deus. A maior penitência que alguém pode fazer é suportar as preocupações e provações sem desanimar, sem se amargurar.
Sintamo-nos, portanto, amados e queridos por Aquele que assumiu as nossas dores e pecados e quis ser um de nós, um no meio de nós. Sendo Deus, despiu-se; sendo Deus, humilhou-se; sendo Deus, redimiu-nos.
Que Deus nos abençoe e nos livre de todo mal. Amém.
Boa e Santa Quaresma a todos.




