Quando se fala em guerra, a imagem imediata costuma ser de explosões, mortes e destruição — mas isso é apenas a face mais visível do problema. Existe uma outra guerra, silenciosa e prolongada, que começa quando o conflito termina: a guerra contra as doenças, muitas vezes ainda mais devastadora.
No curto prazo, o colapso é imediato: sistemas de saúde deixam de funcionar, hospitais são destruídos ou ficam superlotados, e desaparecem recursos básicos como água potável, saneamento e alimentação adequada. Nesse cenário, doenças infecciosas se espalham rapidamente, com infecções respiratórias, diarreias graves e surtos de cólera e sarampo se tornando comuns. Ferimentos mal tratados evoluem para infecções graves, amputações e sepse — e a mortalidade passa a vir não só das armas, mas da ausência de cuidados essenciais.
Além disso, o impacto psicológico surge ainda durante o conflito. Transtornos como ansiedade aguda, insônia e estresse pós-traumático tornam-se frequentes, enquanto crianças expostas à violência sofrem alterações profundas no desenvolvimento emocional e cognitivo, muitas vezes permanentes. No médio prazo, o cenário se agrava com deslocamentos em massa: populações passam a viver em campos de refugiados ou em condições extremamente precárias, criando o ambiente ideal para a disseminação de doenças como tuberculose, hepatites e infecções parasitárias. A desnutrição também se torna central, especialmente entre crianças e idosos.
Ao mesmo tempo, doenças crônicas deixam de ser tratadas. Condições como hipertensão, diabetes e câncer evoluem sem controle, levando a complicações graves como infartos, AVCs e progressão de tumores que poderiam ter sido evitados. A interrupção da vacinação reabre espaço para doenças anteriormente controladas. Já no longo prazo, os efeitos mais silenciosos começam a se manifestar: há um aumento significativo de doenças mentais crônicas, como depressão, abuso de álcool e drogas e transtornos de ansiedade persistentes. A exposição a poluentes, metais pesados e resíduos de explosões também contribui para o crescimento de doenças respiratórias e câncer ao longo dos anos.
Por fim, crianças que crescem em ambientes de guerra carregam riscos elevados de adoecimento ao longo da vida, não apenas pelo trauma, mas também pela desnutrição e pelas condições precárias nos primeiros anos — um período crítico para o desenvolvimento do organismo. Soma-se a isso a desestruturação completa dos sistemas de saúde: reconstruir prédios é relativamente rápido, mas reerguer equipes, protocolos, acesso a medicamentos e a confiança da população pode levar décadas. Guerras, portanto, não produzem apenas mortes imediatas — elas desencadeiam um efeito prolongado de doenças que se estende por anos ou até gerações. Mais do que geopolítica, trata-se de uma questão profunda de saúde pública, cujo custo é sempre muito maior do que parece à primeira vista.
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