“Você é o que você come?”, por Luci Bonini

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Há uma frase que atravessa gerações: “você é o que você come.” Talvez ela nunca tenha sido tão atual. Durante centenas de milhares de anos, nossos ancestrais sobreviveram daquilo que conseguiam encontrar. Os neandertais e outros grupos humanos dependiam da caça, dos frutos, das raízes e das folhas disponíveis em cada estação. A alimentação era determinada pela natureza e pela necessidade. Não havia supermercados, aplicativos de entrega ou prateleiras repletas de produtos coloridos. Havia apenas o desafio de sobreviver.

Quando o homem viu que o fogo poderia melhorar o sabor de suas comidas, cozinhar significou muito mais do que tornar os alimentos mais saborosos. Carnes passaram a ser mais seguras, raízes tornaram-se mais digestivas e o aproveitamento energético dos alimentos aumentou. Em certo sentido, cozinhar foi uma das primeiras grandes revoluções tecnológicas da humanidade e o aperfeiçoamento, ao longo de séculos, mudou nossa mesa.

No Brasil, durante muito tempo, o prato cotidiano foi relativamente simples: arroz, feijão, alguma carne, verduras e frutas da estação. Um modelo que, apesar de suas limitações, oferecia equilíbrio nutricional e fazia parte da identidade cultural do país.
A partir das últimas décadas do século XX, entretanto, outro padrão alimentar ganhou espaço. Lanches rápidos, refrigerantes, salgadinhos, biscoitos recheados e uma infinidade de alimentos ultraprocessados passaram a ocupar lugar de destaque na alimentação de adultos e, principalmente, das crianças. São produtos criados para durar mais tempo, ter sabor intenso e estimular o consumo frequente. O problema é que o organismo humano nunca evoluiu para viver deles.

Os resultados começam a aparecer cedo. Crianças apresentam obesidade, colesterol elevado, hipertensão e diabetes tipo 2, doenças que antes eram consideradas típicas da vida adulta. No Brasil, cerca de uma em cada três crianças entre cinco e nove anos já apresenta excesso de peso, um dos maiores desafios atuais para a saúde pública. É claro, que Isso não significa demonizar a tecnologia ou condenar um hambúrguer de vez em quando.

Ao mesmo tempo, outras escolhas alimentares surgiram por razões éticas, ambientais, religiosas ou de saúde. Vegetarianos excluem as carnes, mas podem consumir leite e ovos. Veganos vão além, procurando eliminar qualquer produto de origem animal da alimentação e até do cotidiano. São opções legítimas quando acompanhadas por informação e planejamento nutricional.

O perigo começa quando a alimentação deixa de dialogar com a ciência.
Recentemente, chamou atenção o caso de um homem adepto da chamada “alimentação pela luz”, uma crença sem qualquer fundamento científico, segundo a qual seres humanos poderiam sobreviver apenas da energia solar e do ar. Convencido dessa ideia, ele impediu que seu próprio filho recém-nascido fosse alimentado adequadamente. A criança morreu de desnutrição crônica associada à pneumonia. Não foi a fome que matou aquele bebê. Foi uma crença que recusou a realidade.

Comer é cultura, memória, convivência, afeto e responsabilidade. Cada refeição conta uma história sobre quem somos e sobre o mundo que desejamos construir. Talvez a frase correta não seja “você é o que você come”, mas sim, “Você se torna, pouco a pouco, aquilo que escolhe colocar no seu prato no dia a dia.”

(Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal HojeDiario.com).

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