“A violência contra crianças começa muito antes da tragédia; a proteção também”, por Neusa Freitas

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Há notícias que revoltam. Outras fazem a gente parar e olhar para algo que costuma passar despercebido.
Nesta semana, um menino de 3 anos morreu depois de ser espancado pelo próprio pai. Uma menina da mesma idade foi agredida com um chute no rosto desferido pelo genitor, em plena rua. Um menino de 10 anos, diabético, foi encontrado trancado em um apartamento, em condições insalubres, sem comida e, segundo informações divulgadas pelas autoridades, sem acesso ao banheiro. A mãe é investigada por abandono.

São casos diferentes, mas todos chegaram ao noticiário quando a violência já havia alcançado seu pior momento. Ao ler essas notícias, não consegui deixar de pensar em outra questão: por que a sociedade só parece olhar para a violência contra crianças quando ela termina em tragédia?

A tragédia nos choca; os sinais, nem sempre. A violência contra crianças raramente começa no dia em que chega ao conhecimento das autoridades ou ganha repercussão. Antes disso, o medo já pode fazer parte da rotina. Os machucados passam a ser frequentes. A negligência deixa de ser um episódio isolado. O comportamento da criança muda. Um vizinho estranha. Um familiar percebe algo diferente. Alguém desconfia e, muitas vezes, acredita que outra pessoa vai agir.

Nem todos os casos deixam sinais evidentes, mas muitos deixam. Quando vistos em conjunto, ajudam a mostrar que a tragédia dificilmente surge de um único episódio.

Os números confirmam que esses casos estão longe de ser exceção. Dados do MDHC (Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania) apontam que, somente nos quatro primeiros meses de 2026, o Brasil registrou 115.814 denúncias de violações de direitos de crianças e adolescentes. A residência da própria vítima continua sendo o principal local onde essas violências ocorrem.

Isso ajuda a entender por que, para tantas crianças, o lugar onde deveriam encontrar proteção acaba sendo também o ambiente onde encontram medo.

Ainda ouvimos que ninguém deve interferir na forma como outra família cria seus filhos, mas existe um limite. Quando há indícios de violência, abandono ou negligência, já não estamos falando apenas da vida privada de uma família, mas da proteção de uma criança.

Denunciar não significa condenar ninguém; significa permitir que os órgãos competentes investiguem. Se os indícios não se confirmarem, a investigação será encerrada. Mas, se forem verdadeiros, uma denúncia pode interromper um ciclo de violência antes que ele termine da pior forma.

Os três casos desta semana sairão do noticiário e outros ocuparão as manchetes. O que não pode desaparecer junto com eles é a nossa capacidade de reconhecer que a violência contra crianças quase nunca começa no dia em que vira notícia.

A violência contra crianças começa muito antes da tragédia. A proteção também. A diferença é que uma depende do silêncio; a outra, da atitude de alguém.

(Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal HojeDiario.com).

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