“Reforma Tributária: sua empresa pode vender mais e ganhar menos”, por Robinson Guedes

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Durante muito tempo, uma das principais preocupações do empresário brasileiro foi saber quanto pagaria de imposto. Com a Reforma Tributária, essa pergunta continuará sendo importante, mas deixará de ser suficiente. O novo modelo tributário exigirá uma análise muito mais ampla sobre o impacto dos tributos dentro da operação e, principalmente, sobre aquilo que realmente interessa ao empresário: a margem e o lucro. Afinal, uma empresa pode aumentar significativamente seu faturamento e, mesmo assim, terminar o período ganhando menos.

Imagine uma empresa que atualmente fatura R$ 1 milhão por ano e possui uma margem de lucro saudável. Com crescimento comercial, novos clientes e expansão das operações, essa empresa passa a faturar R$ 1,5 milhão. À primeira vista, o cenário parece excelente. Porém, se nesse mesmo período houver alterações nos custos, na apropriação de créditos tributários, na formação dos preços e na dinâmica financeira das operações, o aumento de 50% no faturamento pode não representar um aumento proporcional no lucro. Em determinadas situações, a empresa pode até trabalhar mais, vender mais e movimentar mais dinheiro, mas terminar com uma margem menor.

É justamente por isso que a Reforma Tributária não deve ser analisada apenas pela ótica da alíquota. O empresário precisará compreender como a tributação estará inserida em toda a cadeia de operação, como os créditos serão aproveitados, como os preços serão formados e qual será o impacto efetivo dos tributos sobre a rentabilidade do negócio.

Um dos principais pontos de atenção será a formação do preço de venda. Muitas empresas ainda calculam seus preços considerando principalmente o custo do produto ou serviço, as despesas operacionais, a margem desejada e a carga tributária vigente. Com a mudança do sistema, essa equação precisará ser revisitada. O preço que hoje proporciona determinada margem pode não produzir o mesmo resultado no novo cenário. Por isso, simplesmente aplicar uma nova alíquota sobre o preço atual pode levar a decisões equivocadas. A empresa precisará considerar não apenas o tributo incidente sobre a venda, mas também a estrutura de custos, os créditos tributários, o perfil dos clientes, os fornecedores e toda a cadeia envolvida na operação.

Outro aspecto fundamental está relacionado à lógica dos créditos tributários. A Reforma Tributária modifica significativamente a forma como os tributos sobre o consumo serão tratados e amplia a importância da não cumulatividade. Na prática, isso significa que a análise tributária não poderá ficar restrita ao imposto pago pela própria empresa. Será necessário entender quanto de crédito poderá ser apropriado ao longo da cadeia e como isso influencia o custo efetivo das operações. Duas empresas que comercializam produtos ou serviços semelhantes podem, dependendo da estrutura de suas operações, fornecedores e clientes, apresentar resultados econômicos diferentes.

Além disso, o empresário precisará olhar com ainda mais atenção para o fluxo de caixa. A Reforma Tributária não envolve apenas uma mudança na forma de calcular tributos; ela também pode alterar a dinâmica financeira das operações. Mecanismos como o Split Payment, por exemplo, podem modificar a forma como os valores relacionados aos tributos são separados e movimentados dentro de determinadas operações. Para empresas que trabalham com margens reduzidas ou dependem fortemente de capital de giro, compreender quando o dinheiro estará efetivamente disponível para utilização pode ser tão importante quanto saber quanto será pago em tributos.

Esse novo cenário mostra que a Reforma Tributária não deve ser tratada como um assunto exclusivo do departamento fiscal ou da contabilidade. Ela poderá alcançar diversas áreas da empresa, influenciando vendas, compras, contratos, tecnologia, financeiro, estoque, formação de preços e planejamento estratégico. Uma decisão comercial que hoje parece vantajosa pode apresentar um resultado completamente diferente quando analisada sob a nova lógica tributária.

Por isso, empresas que pretendem crescer precisam começar a olhar para essa transformação antes que todas as mudanças estejam plenamente implementadas. Esperar a conclusão da transição para começar a se preparar pode significar perder tempo e, principalmente, tomar decisões com base em uma realidade que estará mudando.

A Reforma Tributária não acontece apenas em 2033. 2033 representa o encerramento da transição para o novo modelo, mas a preparação das empresas precisa acontecer muito antes. É agora que os empresários devem começar a revisar processos, sistemas, contratos, preços, fornecedores, clientes e indicadores financeiros para entender como o novo ambiente tributário poderá afetar seus negócios.

Nesse contexto, o papel do contador também passa por uma transformação importante. Mais do que informar quanto a empresa deverá pagar, será necessário interpretar os impactos da tributação e transformar informação em decisão. O empresário precisará de respostas para perguntas cada vez mais estratégicas: qual preço devo praticar? Qual fornecedor é mais vantajoso? Como determinado cliente impacta minha margem? Como preservar meu capital de giro? Quais processos precisam ser modificados? Como a estrutura atual da empresa se comportará diante do novo sistema?

A Reforma Tributária pode, portanto, representar não apenas uma mudança na forma de arrecadação de impostos, mas uma mudança na própria maneira de administrar uma empresa. O empresário que olhar somente para a alíquota poderá enxergar apenas uma parte do problema. Quem analisar o impacto tributário sobre preço, margem, crédito, caixa e estratégia estará muito mais preparado para tomar decisões.

No fim, a questão não será simplesmente vender mais. Será vender mais, preservar a margem, proteger o caixa e tomar decisões melhores. Porque, no novo cenário tributário, crescer sem conhecer profundamente os números pode significar algo que nenhum empresário deseja: trabalhar mais, faturar mais e ganhar menos.

(Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal HojeDiario.com).

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