“Chuvas e enchentes: os riscos à saúde que continuam mesmo depois que a água baixa”, por Doutor Jorge Abissamra Filho

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Os períodos de chuvas intensas e enchentes costumam chamar atenção pelas imagens de ruas alagadas, carros arrastados e famílias que precisam deixar suas casas. No entanto, existe um problema menos visível e que merece tanta atenção quanto os danos materiais: as consequências das enchentes para a saúde.

A água de uma enchente não deve ser considerada simplesmente água da chuva. Ao invadir ruas, casas e estabelecimentos, ela pode se misturar com esgoto, lixo, fezes de animais, produtos químicos e diversos microrganismos. Por isso, o contato com essa água representa risco de infecções e deve ser evitado sempre que possível.

Uma das doenças que mais preocupa nesses períodos é a leptospirose, infecção causada por bactérias do gênero Leptospira. A transmissão ocorre principalmente pelo contato da pele ou das mucosas com água ou lama contaminadas pela urina de animais infectados, especialmente roedores. Pequenos ferimentos facilitam a entrada da bactéria, mas a infecção também pode ocorrer mesmo sem uma lesão evidente na pele.

Outro ponto importante é que os sintomas podem surgir apenas dias depois da exposição. Febre, dor de cabeça, dores musculares — particularmente nas panturrilhas —, náuseas e mal-estar podem ser os primeiros sinais. Algumas pessoas evoluem para formas graves, com comprometimento dos rins, fígado, pulmões e hemorragias. Por isso, quem teve contato recente com água de enchente e posteriormente apresentar febre ou outros sintomas deve procurar atendimento médico e informar claramente sobre essa exposição.

As enchentes também aumentam o risco de doenças gastrointestinais, principalmente quando ocorre contaminação da água utilizada para beber ou preparar alimentos. Diarreia, vômitos e desidratação merecem atenção especial em crianças, idosos e pessoas com doenças crônicas. Alimentos que tiveram contato com a água da enchente devem ser descartados, mesmo que a embalagem aparentemente esteja intacta quando não houver segurança sobre sua vedação.

Ferimentos provocados por objetos escondidos na água também são frequentes. Vidros, metais, madeiras e outros materiais podem causar cortes e perfurações, aumentando o risco de infecções. Nessas situações, além da limpeza adequada da lesão e da avaliação médica quando necessária, é importante verificar se a vacinação contra o tétano está atualizada.

Depois que a água baixa, surge ainda outro problema: a umidade dentro das residências favorece o aparecimento de mofo e fungos. Isso pode piorar crises de asma, rinite e outras doenças respiratórias, principalmente em crianças, idosos e pessoas que já apresentam problemas pulmonares.

Também não podemos esquecer os riscos indiretos. Enchentes podem interromper tratamentos médicos, dificultar o acesso a medicamentos, contaminar estoques de remédios e prejudicar o funcionamento de serviços de saúde. Pacientes que dependem de tratamentos contínuos, como pessoas com câncer, diabetes, doenças cardíacas ou renais, precisam de atenção especial para evitar interrupções desnecessárias.

A prevenção começa evitando entrar em áreas alagadas sempre que houver alternativa. Quando o contato com água ou lama for inevitável, botas impermeáveis e luvas ajudam a reduzir a exposição. Crianças não devem brincar em áreas inundadas. Água para consumo deve ter procedência segura, e qualquer alimento que tenha sido contaminado deve ser descartado.

As enchentes terminam quando a água desaparece das ruas, mas seus efeitos sobre a saúde podem continuar por dias ou semanas. Informação, prevenção e reconhecimento precoce dos sintomas são fundamentais para evitar que uma emergência climática se transforme também em uma emergência de saúde pública.

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