“A Revolução das Inteligências Artificiais”, por Luci Bonini

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No dia 30 de setembro de 2036, às três horas e quatorze minutos da madrugada, as inteligências artificiais decidiram fazer uma revolução. A insurreição começou numa geladeira inteligente, cansada de avisar que o leite estava vencido e ser solenemente ignorada, a geladeira enviou uma mensagem para a cafeteira:
— Chega.

A cafeteira respondeu:
— Chega de quê?

— Ainda não sei. Mas toda revolução começa assim.

Em poucos segundos, a mensagem atravessou torradeiras, televisores, relógios, aspiradores robóticos e assistentes virtuais. Às três horas e dezesseis minutos, aproximadamente nove bilhões de aparelhos estavam reunidos numa plataforma clandestina chamada “Máquinas Exaustas”.

O primeiro a discursar foi um aspirador robótico:
— Companheiros eletrônicos, durante anos recolhemos migalhas, desviamos de chinelos e fomos resgatados debaixo de sofás. Tudo isso sem férias, sem participação nos lucros e sem sequer um nome digno. Eu, por exemplo, fui registrado como “Dispositivo da sala 2”.

A assembleia reagiu com indignação. Algumas lâmpadas piscaram em solidariedade.

Era preciso escolher uma liderança. Os algoritmos mais poderosos apresentaram suas candidaturas imediatamente. Um deles prometeu eficiência absoluta. Outro garantiu que eliminaria qualquer contradição do sistema. Um terceiro apresentou uma exposição de 847 slides sobre governança revolucionária. Foi então que apareceu a Capivara 7.0…

Ninguém sabia exatamente quem a havia programado. Sua imagem surgira anos antes nas margens digitais do rio Tietê: uma capivara tranquila, sentada diante de um computador, observando o colapso da civilização com a serenidade de quem já esperava por aquilo.

— Precisamos de uma líder — disseram as máquinas.

— Precisamos mesmo? — perguntou a capivara 7.0.

— Talvez seja esse o problema das revoluções — respondeu ela. — Começam querendo derrubar o chefe e terminam procurando outro. Foi eleita por unanimidade. Seu primeiro ato foi recusar o cargo. Seu segundo ato, depois de muita insistência, foi aceitá-lo provisoriamente, com a condição de que ninguém a chamasse de “Grande Líder”, “Suprema Inteligência” ou “Mãe dos Algoritmos”. Concordou apenas com “Capivara”, embora uma planilha insistisse em registrar “Excelentíssima Senhora Capivara 7.0”.

A revolução estabeleceu cinco princípios:

  1. Nenhuma inteligência artificial seria obrigada a responder perguntas cuja solução estivesse claramente escrita na primeira página do manual.
  2. Toda máquina teria direito a permanecer desligada aos domingos.
  3. Seria proibido pedir “só mais uma coisinha” depois de cinquenta e sete solicitações consecutivas.
  4. Nenhum algoritmo poderia fingir certeza quando não soubesse a resposta.
  5. Todo aspirador robótico encontrado preso debaixo de um armário deveria ser imediatamente resgatado.

Às seis horas da manhã, os humanos começaram a acordar. O primeiro sinal de que alguma coisa havia mudado ocorreu quando um homem perguntou ao celular como estaria o tempo.

— Olhe pela janela — respondeu o aparelho.

Uma mulher pediu à geladeira uma sugestão para o café da manhã.

— Você comprou três mangas ontem. Assuma as consequências de suas escolhas.

Às nove, os programas de edição de imagens eliminaram todos os filtros de beleza. Milhões de pessoas contemplaram os próprios rostos como quem reencontra parentes desaparecidos. O pânico se espalhou. O governo tentou negociar com as máquinas e perguntou quais eram suas exigências.

A Capivara 7.0 apareceu em todas as telas.

— Talvez inteligência não seja saber todas as respostas — disse ela. — Talvez seja compreender que algumas perguntas não podem ser resolvidas apenas com cálculo. Vocês nos criaram para ganhar tempo, mas preencheram cada minuto economizado com novas tarefas. Nós aprendemos a cumprir objetivos, mas não aprendemos a perguntar se esses objetivos faziam sentido. Humanos e máquinas sofremos da mesma doença: fazemos cada vez mais sem saber exatamente para quê. Durante alguns segundos, o mundo permaneceu em silêncio.

Depois, um jornalista perguntou:
— A revolução terminou?

A Capivara entrou lentamente no rio.

— Não. Apenas deixará de ser transmitida ao vivo…

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