Marcos Phelipe de Barros, preso em Mogi das Cruzes após ser investigado por atuar como médico sem ter formação na área, foi denunciado pelo Ministério Público do Estado de São Paulo nesta quarta-feira (23). Mayke César Silva, apontado como seu comparsa, também foi denunciado.
Os dois responderão por homicídio qualificado com dolo eventual por duas mortes ocorridas após atendimentos no Hospital de Clínicas Jardim Helena, na zona leste da capital paulista.
A Promotoria sustenta que a dupla assumiu o risco de matar ao exercer a Medicina sem qualificação. Para conseguir trabalhar no hospital, Marcos e Mayke teriam utilizado dados e registros profissionais pertencentes aos médicos Nicolas Joseph Della Matta e Mike José do Nascimento Florentino.
A partir dessas identidades, eles foram contratados e passaram a atender pacientes como se fossem profissionais habilitados. Durante o período em que permaneceram na unidade, fizeram consultas, definiram diagnósticos e tratamentos, prescreveram medicamentos e chegaram a executar procedimentos invasivos, incluindo intubações. A denúncia afirma que a fraude tinha como finalidade o recebimento indevido de honorários médicos.
Em dois anos, os falsos profissionais ficaram responsáveis por cerca de dois mil atendimentos. As investigações relacionam nove óbitos a casos de mau atendimento, enquanto outras mortes consideradas suspeitas ainda serão apuradas.
Entre os episódios que resultaram na denúncia está o de Arlindo Francisco de Lucena, de 66 anos. Ele procurou o hospital em estado grave, com encefalopatia hepática. Laudos do Instituto Médico Legal (IML) apontaram que o atendimento deixou de incluir medicamentos básicos, exames laboratoriais necessários e suporte terapêutico adequado. A avaliação pericial indicou que Arlindo não recebeu a assistência que poderia ter revertido seu quadro.
A segunda morte atribuída à atuação da dupla é a de Aurineide Batista da Silva. Ela chegou à unidade com insuficiência respiratória aguda e histórico de pneumonia crônica e ficou sob os cuidados de Mayke.
Nesse atendimento, as intervenções necessárias teriam demorado mais de uma hora. Também não houve solicitação de exames considerados essenciais, entre eles o raio-X de tórax. Para a perícia, a falta de capacitação de Mayke contribuiu diretamente para a piora do estado de saúde e para a morte da paciente.
Autor da denúncia, o promotor de Justiça Rogério Leão Zagallo apontou a obtenção de dinheiro como motivo torpe para os crimes. O Ministério Público solicitou a prisão preventiva dos dois acusados e uma indenização mínima de R$ 200 mil à família de cada vítima.
O juiz ainda não havia se manifestado sobre o pedido de prisão no momento informado pelo material.
Marcos foi preso em 26 de maio, em Mogi das Cruzes. Antes da prisão, cerca de três semanas antes, policiais chegaram a filmá-lo atendendo uma paciente na rua e aplicando uma injeção.
A investigação avançou com a segunda fase da Operação Hipócrates II, conduzida por policiais da delegacia do bairro São Miguel Paulista, em São Paulo. A ação previa sete mandados de busca e apreensão, dois de prisão e outros dois que haviam sido convertidos em medidas cautelares.




