“Nossas adolescentes precisam voltar para casa em segurança”, por Neusa Freitas

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Ela tinha 13 anos e saiu de casa para comprar ovos.
É uma frase tão simples que poderia fazer parte da rotina de qualquer família. A mãe pede alguma coisa, a filha vai até um comércio próximo e volta para casa. Não deveria existir nenhuma história para contar depois disso. Mas existiu.

Nesta semana, uma adolescente de 13 anos saiu de casa para comprar ovos em um comércio no Jardim Catanduva, na zona sul de São Paulo. Segundo o boletim de ocorrência, um homem de 41 anos a viu atravessando a rua, passou a segui-la e, já dentro do estabelecimento, teria praticado atos de natureza sexual contra ela. O suspeito foi preso e teve a prisão em flagrante convertida em preventiva. O caso foi registrado como estupro de vulnerável.

Sou mãe de uma adolescente. Talvez por isso seja impossível ler uma notícia dessas e simplesmente seguir para a próxima. Porque poderia ser a filha de qualquer uma de nós.
E não quero transformar esse texto em mais uma lista de recomendações dizendo às adolescentes onde podem ir, como devem andar ou de quem precisam desconfiar. Elas já carregam cuidados demais para uma idade em que deveriam estar preocupadas com coisas muito mais simples. Mas também não dá para ignorar a realidade.

Precisamos conversar com nossas filhas. Não para criar medo, mas para que elas saibam reconhecer quando alguma coisa está errada. Precisamos falar sobre o próprio corpo, sobre limites e sobre o direito de não aceitar uma aproximação que provoque desconforto. Elas precisam saber que podem sair de um lugar, pedir ajuda, telefonar para alguém e até gritar, se for preciso.
E, principalmente, precisam saber que podem contar. Sem medo de levar bronca ou de ouvir que entenderam errado. Sem receio de serem questionadas sobre onde estavam ou por que fizeram determinada coisa.

Nesse caso, há um detalhe que me chamou especialmente a atenção. Quando a adolescente voltou para casa, a mãe percebeu que ela estava abalada e perguntou o motivo da demora. A filha contou o que havia acontecido. Depois, imagens de câmeras do comércio e da região contribuíram para a apuração policial.
Ela contou porque alguém perguntou. Isso diz muita coisa.

Nem sempre nossos filhos vão chegar em casa e anunciar que alguma coisa aconteceu. Às vezes, vão ficar mais quietos. Podem mudar de comportamento, demonstrar medo, vergonha ou simplesmente não saber explicar direito o que viveram. É aí que entra uma atenção que não tem nada a ver com vigiar cada passo. Tem a ver com conhecer nossos filhos o suficiente para perceber quando alguma coisa não está bem.

E existe uma dificuldade enorme nisso, porque proteger não pode significar impedir que vivam. Não podemos criar nossas filhas acreditando que a única maneira de permanecerem seguras é ficando dentro de casa, evitando lugares, pessoas e experiências. Até porque essa adolescente estava apenas indo comprar ovos.

Talvez seja justamente essa banalidade que torne o caso tão assustador. Ela não estava fazendo nada excepcional. Não estava em uma situação que alguém pudesse classificar como perigosa. Era uma adolescente de 13 anos realizando uma tarefa absolutamente comum. E, segundo a investigação, um adulto decidiu segui-la.
A responsabilidade pelo que aconteceu não pode, em nenhum momento, ser deslocada para ela. Mas o caso precisa servir para alguma coisa além da indignação que sentimos quando lemos uma notícia dessas.

Os números mostram que estamos longe de falar de um episódio isolado. O estado de São Paulo registrou 10.217 ocorrências de estupro entre janeiro e agosto deste ano, um aumento de 6% em comparação com o mesmo período de 2025. Na capital, foram 2.190 registros, crescimento de 12,4%. Os dados da Secretaria da Segurança Pública reúnem estupro e estupro de vulnerável.
É muita coisa. E por trás de cada registro existe alguém que teve a vida atravessada por uma violência que não deveria ter acontecido.
Por isso, precisamos prestar atenção aos nossos adolescentes e conversar com eles de uma maneira que talvez gerações anteriores não tenham conversado conosco. Isso vale para nossas filhas, mas também para nossos filhos.

Não adianta ensinar apenas às adolescentes como tentar escapar da violência. Precisamos ensinar aos meninos, desde muito cedo, sobre respeito, limites e consentimento. Sobre entender que o corpo de outra pessoa não lhes pertence e que um “não” não precisa de explicação.
Talvez exista aí uma responsabilidade nossa que ainda esteja sendo dividida de maneira muito desigual. Falamos muito com as meninas sobre como se proteger. Talvez precisemos conversar muito mais com os meninos sobre como respeitar.

E não existe idade cedo demais para começar essa conversa, desde que ela seja feita de acordo com a compreensão de cada criança e adolescente.
O caso dessa adolescente mexe comigo justamente porque começa de uma maneira tão comum. Ela saiu para comprar ovos. Uma tarefa pequena, dessas que milhares de adolescentes fazem todos os dias a pedido dos pais.
Aos 13 anos, deveria ser possível fazer isso e voltar para casa em segurança. Não deveria ser pedir demais.

E, enquanto ainda for necessário alertar nossas filhas sobre riscos que elas jamais deveriam correr, que pelo menos exista dentro de casa uma certeza muito maior do que o medo que podemos sentir por elas: se alguma coisa acontecer, conte. Nós vamos ouvir você.

(Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal HojeDiario.com).

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