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“Chuva de Novembro”, por Marcelo Candido

Um amigo recebeu a notícia de que ele estava com câncer! Tinha acabado de chegar a pouco mais de 40 anos de vida e estava repleto de esperanças diante do futuro. De repente parecia que o fim chegara e que todas as esperanças seriam sepultadas com ele. Era ainda um escritor desejoso de ser reconhecido. Um livro seu já publicado poderia ser ou vir a ser o testemunho de seu talento, embora ainda pouco conhecido pelo público e pelos seus pares.

Livros são obras que eternizam quem os escreve e passam a ser analisados pela lente mágica do tempo. Cada época é capaz de dar ao autor a oportunidade de ser avaliado segundo o espírito do tempo, fazendo com que determinadas publicações nunca envelheçam ou envelheçam mal. No caso de meu amigo, seu livro recebeu um título premonitório, pois, ao final da sua vida, o mês e as condições do tempo ofereceram-lhe uma intrigante realidade que somente o acaso é capaz de proporcionar.

Entretanto, fenômenos que fundem autor e obra permitem-nos especular se algo aconteceu por força do destino ou como forma de chamar a atenção para as não coincidências da vida. Em geral, aqui no Brasil não sabemos tratar bem sobre o tema da morte e sobre tudo aquilo que o circunda. Os Orientais acolhem a finitude humana com maior normalidade. Entre os povos da América Latina o culto aos mortos tem características que também configuram um tipo de relação com a morte bem mais receptiva do que nós brasileiros. Por isso, a notícia a respeito de uma enfermidade que flerta com a morte nos causa profundo pavor.

Câncer é quase uma palavra proibida, embora não seja necessariamente uma sentença de morte. Muitas pessoas procuram excluir essa palavra de seu vocabulário como se isso fosse a forma de evitar a doença. E, na tentativa de apoiar a pessoa acometida pelo câncer, lançam mão de manifestações genuinamente carregadas de esperanças, como demonstração de profunda compaixão. Desejam melhoras, elaboram frases motivacionais e, sobretudo, clamam a Deus pela cura milagrosa. É preciso sinalizar que a doença não corresponde a uma sentença de morte, e é grande o número de pessoas que se recuperam da enfermidade, ou que conseguem acumular muito tempo sem que o câncer comprometa-lhes a qualidade de vida.

A morte às vezes faz troça com a vida e leva por ocorrência de infarto quem, uma vez alcançado pela doença, esperava morrer vitima do câncer. A medicina avançou de forma admirável na capacidade de não mais permitir que o diagnóstico da doença seja sinônimo do final da vida. Esse avanço se deve às conquistas da ciência, e pesquisas recentes comprovam que a redução de seus efeitos maléficos sobre a vida tende a ser cada vez maior e de forma mais acelerada.

Fui ao hospital ver o meu amigo moribundo. Cheguei trêmulo, pois fui informado que o médico o havia indicado para os cuidados paliativos, posto não haver mais o que ser feito para extirpar a doença e poupar a vida do paciente. No máximo, meu amigo teria poucos meses de vida a depender de sua capacidade de reagir aos métodos aplicados no setor de retaguarda. Eu não sabia que ele já havia sido informado de que ser enviado a esse tipo de atenção naquelas condições era o prenúncio da morte inevitável.

Ao me receber, o amigo demonstrou enorme contentamento pela visita e aproveitou para falar sobre os assuntos de que gostava. Disse reveladoramente que sabia que não lhe restavam muitos dias de vida e que sua preocupação maior dizia respeito ao futuro dos filhos, ainda muito pequenos. Mesmo assim, ele demonstrou impressionante serenidade às portas do destino pouco generoso. Daquele momento em diante houve uma importante conexão entre nós, que transpassou todo o tempo de nossa amizade.

Lembramo-nos de muita coisa, boas e nem tão boas. Percebi que ele não se referiu a Deus em nenhum momento, não pediu orações e menos ainda disse uma só palavra que indicasse o mínimo de esperança de que um milagre acontecesse. Recebia a morte demonstrando uma força incrível. Porém, ele estava deformado pela doença e mal falava sem demonstrar muita fadiga. Por um instante velei em silêncio meu amigo no leito de morte sem estar morto; percebi em seu olhar a despedida sem cair uma única lágrima; senti que aquele era o último momento que o veria vivo, e que da próxima vez teria apenas um corpo sem vida para ver ser sepultado.

Esta foi uma das experiências mais marcantes que tive em todos os meus anos de vida, e a tenho guardada na memória como testemunho de uma despedida extremamente emocionante. Já se vão muitos anos desde aquele derradeiro encontro, e de vez em quando ainda me lembro da dignidade daquele meu amigo ao enfrentar a morte. Sua força foi muito inspiradora. Ao olhá-lo pela última vez e dar-lhe as costas depois de um último abraço naquele hospital público, tão logo cheguei a minha casa, cai desesperadamente em prantos.

Estava em missão profissional há intransponíveis quilômetros de distância quando dias depois fui avisado por um amigo em comum que o Carlos de Andrade havia morrido. Então, não pude vê-lo irremediavelmente morto. Entreguei-me a um momento de lembranças e desejei que ele pudesse ser amorosamente acolhido em algum lugar fora de nosso alcance material. Era um dia chuvoso de um novembro cinzento na Grande São Paulo. Um chiste do destino a quem escolhera dar ao seu livro o título de “Chuva de Novembro”?

(Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do HojeDiario.com)