Um dado recente da Organização Mundial da Saúde, por meio da IARC, deveria estar no centro do debate em saúde pública: quase 40% dos casos de câncer no mundo estão associados a fatores evitáveis. Não estamos falando de genética rara ou de tecnologias futuristas, mas de hábitos conhecidos há décadas — tabagismo, alimentação inadequada, sedentarismo, consumo excessivo de álcool e exposição a agentes ambientais nocivos.
Esse número impressiona não apenas pelo tamanho, mas pelo que ele revela: o câncer não é apenas um problema médico, é um problema de política pública.
Parar de fumar, manter uma dieta equilibrada e praticar atividade física regular reduzem de forma significativa o risco de vários tipos de câncer, como pulmão, intestino, mama, esôfago e fígado. A ciência é clara, consistente e robusta. O que falha não é o conhecimento — é a implementação.
Quando observamos os sistemas de saúde, especialmente em países de renda média como o Brasil, vemos investimentos crescentes em tratamentos de alto custo, muitas vezes quando a doença já está avançada. Ao mesmo tempo, a prevenção continua subfinanciada, fragmentada e politicamente pouco atraente, apesar de ser a estratégia mais custo-efetiva disponível.
Políticas públicas bem estruturadas funcionam. Países que investiram pesado no controle do tabagismo reduziram drasticamente a incidência de câncer de pulmão ao longo dos anos. Programas de incentivo à atividade física, regulação de alimentos ultraprocessados e acesso a ambientes urbanos mais saudáveis não são “pautas ideológicas” — são intervenções sanitárias com impacto direto na mortalidade.
Além disso, prevenção não significa apenas comportamento individual. Ambiente importa. Ninguém escolhe morar perto de poluição industrial, ter acesso limitado a alimentos saudáveis ou trabalhar em condições inseguras. Por isso, responsabilizar apenas o indivíduo é uma simplificação perigosa. Prevenção exige Estado, planejamento e continuidade.
O dado da OMS/IARC nos obriga a uma reflexão incômoda: quantos diagnósticos, quantos tratamentos agressivos e quantas mortes poderiam ser evitados se a prevenção fosse tratada como prioridade estratégica — e não como discurso secundário?
Enquanto celebramos os avanços da oncologia moderna, o maior impacto populacional ainda está no básico bem-feito. Prevenir câncer é possível, mensurável e urgente. Falta apenas transformar evidência científica em ação concreta.
E isso não é um desafio do futuro. É uma decisão do presente.
(Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal HojeDiario.com)


