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“Quase 40% dos cânceres poderiam ser evitados. Por que ainda falhamos nisso?”, por Doutor Jorge Abissmra Filho

Um dado recente da Organização Mundial da Saúde, por meio da IARC, deveria estar no centro do debate em saúde pública: quase 40% dos casos de câncer no mundo estão associados a fatores evitáveis. Não estamos falando de genética rara ou de tecnologias futuristas, mas de hábitos conhecidos há décadas — tabagismo, alimentação inadequada, sedentarismo, consumo excessivo de álcool e exposição a agentes ambientais nocivos.
Esse número impressiona não apenas pelo tamanho, mas pelo que ele revela: o câncer não é apenas um problema médico, é um problema de política pública.

Parar de fumar, manter uma dieta equilibrada e praticar atividade física regular reduzem de forma significativa o risco de vários tipos de câncer, como pulmão, intestino, mama, esôfago e fígado. A ciência é clara, consistente e robusta. O que falha não é o conhecimento — é a implementação.

Quando observamos os sistemas de saúde, especialmente em países de renda média como o Brasil, vemos investimentos crescentes em tratamentos de alto custo, muitas vezes quando a doença já está avançada. Ao mesmo tempo, a prevenção continua subfinanciada, fragmentada e politicamente pouco atraente, apesar de ser a estratégia mais custo-efetiva disponível.

Políticas públicas bem estruturadas funcionam. Países que investiram pesado no controle do tabagismo reduziram drasticamente a incidência de câncer de pulmão ao longo dos anos. Programas de incentivo à atividade física, regulação de alimentos ultraprocessados e acesso a ambientes urbanos mais saudáveis não são “pautas ideológicas” — são intervenções sanitárias com impacto direto na mortalidade.

Além disso, prevenção não significa apenas comportamento individual. Ambiente importa. Ninguém escolhe morar perto de poluição industrial, ter acesso limitado a alimentos saudáveis ou trabalhar em condições inseguras. Por isso, responsabilizar apenas o indivíduo é uma simplificação perigosa. Prevenção exige Estado, planejamento e continuidade.

O dado da OMS/IARC nos obriga a uma reflexão incômoda: quantos diagnósticos, quantos tratamentos agressivos e quantas mortes poderiam ser evitados se a prevenção fosse tratada como prioridade estratégica — e não como discurso secundário?

Enquanto celebramos os avanços da oncologia moderna, o maior impacto populacional ainda está no básico bem-feito. Prevenir câncer é possível, mensurável e urgente. Falta apenas transformar evidência científica em ação concreta.

E isso não é um desafio do futuro. É uma decisão do presente.

(Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal HojeDiario.com)