“Quando um crime brutal vira espetáculo”, por Neusa Freitas

Suzane von Richthofen foi condenada pelo assassinato dos próprios pais, em um crime brutal que chocou o país pela frieza e pela covardia. Mais de vinte anos depois, esse horror volta à cena em um documentário já confirmado pela Netflix, cercado de atenção, narrativa e, ao que tudo indica, lucro para quem ajudou a destruir a própria família. A revolta não é exagero. É o limite de quem ainda se recusa a aceitar que uma brutalidade dessas seja tratada como entretenimento.
O problema não é lembrar o crime.
O problema é o que estão fazendo com ele agora.

Revisitar um caso que marcou o país é uma coisa. Recolocar no centro da história quem participou dele é outra. E é exatamente aí que começa a revolta.
Há crimes que precisam ser lembrados, sim.
Mas nem toda lembrança precisa virar produto. Nem toda tragédia precisa voltar com embalagem nova. Nem toda barbárie precisa ser devolvida ao público como conteúdo.

Quando isso acontece, a memória começa a perder espaço para o mercado. E, quando isso acontece, perde-se também a medida. Perde-se o senso de limite. Perde-se a noção de que há histórias que deveriam continuar causando repulsa, não expectativa de estreia.
O Brasil não esqueceu esse caso porque não havia como esquecer.
Foi brutal demais. Covarde demais. Frio demais.
Foi o tipo de crime que atravessa o tempo sem perder a capacidade de chocar.

E há uma dor nessa história que quase nunca ocupa o mesmo espaço. Andreas tinha 15 anos quando perdeu pai e mãe e, junto com eles, perdeu também a irmã que conhecia. A notícia mais recente sobre ele é a recusa em participar do documentário. Hoje, vive recluso, longe dos holofotes, tentando preservar o pouco que restou de uma tragédia que nunca terminou.
Talvez por isso a reação tenha sido tão imediata.

No fundo, muita gente percebeu a mesma coisa: uma coisa é contar um caso que marcou o país; outra é transformar, de novo, em protagonista quem ajudou a destruir a própria família.
E não, isso não é censura.
Também não é moralismo barato.
É recusa.

Recusa em aceitar que tudo possa ser transformado em vitrine. Recusa em achar normal que o horror, se chamar atenção o suficiente, sempre encontre um jeito de voltar embalado como novidade.
Se a participação dela nesse projeto realmente envolveu dinheiro, o incômodo cresce.
Porque aí o recado fica pior.
Mais de vinte anos depois, o crime continua rendendo.
Rende atenção, curiosidade, interesse e, ao que tudo indica, dinheiro também.
Isso ofende.

Ofende porque desloca o centro da história. Ofende porque empurra as vítimas, mais uma vez, para a margem. E ofende porque sugere que até uma tragédia familiar dessa dimensão ainda pode ser reaproveitada como oportunidade.
No fim, é isso que revolta.
Não a lembrança.
Mas a escolha.

A escolha de transformar em espetáculo um crime que deveria continuar sendo lembrado apenas pelo que foi: brutal, covarde e imperdoável.
Quando um crime brutal vira espetáculo, o que desaparece não é só a vítima. Desaparece também o nosso limite.

(Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal HojeDiario.com).

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