“Eu estou vestido com as roupas e as armas de Jorge. Para que meus inimigos tenham pés e não me alcancem…”, os versos eternizados na década de 1970 por Jorge Ben traduzem a força simbólica de São Jorge na vida de seus devotos.
Celebrado nesta quinta-feira (23), o Dia de São Jorge vai muito além de uma data no calendário católico. No Brasil, ele atravessa fronteiras culturais e espirituais, sendo reverenciado tanto nas igrejas quanto nos terreiros, além de ocupar um espaço simbólico na vida cotidiana de milhares de fiéis, inclusive no futebol, em um dos maiores times brasileiros: o Corinthians.
Para entender a força dessa personificação, o portal Hoje Diário conversou com o padre Claudio Taciano, o pai de santo de Suzano, Jorge Corrêa, e o corinthiano apaixonado e líder da Gaviões da Fiel de Suzano, Cleiton Messias, o Muka, revelando como São Jorge se transforma em diferentes contextos sem perder sua essência de proteção e coragem.
Para o padre Claudio Taciano, da Igreja Matriz São Sebastião, São Jorge é um exemplo clássico de fé inabalável diante do sofrimento. “São Jorge, um santo do século IV, teve seu culto difundido na Capadócia, atual Turquia, estando presente tanto na Igreja Ortodoxa quanto na Igreja Católica, em muitos lugares do Brasil e do mundo. Por ser considerado um santo guerreiro e considerando que o futebol nasceu, em grande parte, nas classes populares, os torcedores passaram a pedir a intercessão desse santo forte nas batalhas. Afinal, ele era um soldado romano que não renunciou à fé em Cristo. Não há, portanto, uma ligação oficial por parte da Igreja, mas, como muitos torcedores também são cristãos, é natural que expressem sua fé até mesmo no futebol. Com o tempo, a cultura e a popularidade de São Jorge, somadas às do Corinthians, acabaram reforçando ainda mais essa relação. No entanto, quem levou essa devoção para o futebol foram os próprios torcedores cristãos”, disse à reportagem.
Segundo ele, a imagem do santo montado em seu cavalo, enfrentando o dragão, simboliza a luta constante contra o mal.
Já no universo das religiões de matriz africana, em especial a Umbanda, São Jorge ganha outro nome e outro significado, mas mantém a força espiritual. Para o pai de santo Jorge Corrêa, a figura do santo é associada a Ogum, orixá guerreiro.
“São Jorge é um dos santos mais populares e venerados do mundo, na Igreja Católica, na Umbanda e no Candomblé. Na Umbanda, entendemos a associação entre São Jorge e Ogum e, assim, São Jorge tem suas falanges como Ogum de Ronda, Ogum Megê, Ogum Beira-Mar, entre outros. Ogum é um orixá que deu ao mundo condições de sobrevivência, transformando o ferro em ferramentas necessárias, sendo um dos orixás mais cultuados na Umbanda e no Candomblé, e suas histórias misturam fatos históricos com lendas riquíssimas.
Meu nome foi escolhido pela minha avó materna, porque estava difícil de eu nascer. Ela fez um pedido a São Jorge: se fosse homem, seria Jorge; se fosse mulher, Georgina. Fiquei feliz com o nome! Sou devoto de São Jorge!”, contou Jorge.
Essa conexão entre fé e luta também se manifesta fora dos espaços religiosos. Para o líder da Gaviões da Fiel em Suzano, Cleiton Messias, o Muka, São Jorge é mais do que um símbolo espiritual, é parte da identidade.
“Minha relação com o Corinthians começou de berço. Sou de uma família de corinthianos fanáticos, então não tinha como ser diferente. Meu primeiro jogo na arquibancada foi Corinthians x Ponte Preta, em 1999. Na ocasião, perdemos, e isso despertou em mim um desejo enorme de fazer parte da Gaviões, porque, mesmo com a derrota, eu via aqueles torcedores cantando incansavelmente até o apito final. Segundo os mais velhos, a relação com São Jorge surgiu por causa do primeiro bem conquistado pelo Corinthians, a ‘Fazenda São Jorge’. Logo após conhecer a história do santo, todos concordavam que sua trajetória de luta era parecida com a do Corinthians”, contou sobre o início da paixão pelo time paulista.
Sobre a fé nas arquibancadas, Muka relembra um momento do último campeonato da Libertadores. “É claro que recorro a São Jorge quase sempre, porque o Corinthians nos obriga a isso. Mas, para mim, um momento marcante em que acho que ele realmente me ouviu foi na semifinal da Copa Libertadores, quando Diego Souza, do Vasco, corria em direção ao gol do Corinthians. Em poucos segundos, pedi tanto a São Jorge que ele perdesse o gol… e, quando perdeu, eu ofereci até uma novena ao santo do Parque. Além de mim, quando olhei para o lado, um colega estava em cima de um poste segurando uma imagem de São Jorge (veja abaixo)”, relembra Muka.
Entre igrejas, terreiros e arquibancadas, São Jorge segue atravessando gerações e espaços como um símbolo de proteção e esperança.
Seja como santo, orixá ou inspiração popular, sua imagem continua reunindo diferentes histórias sob um mesmo sentimento: a fé de resistência.










