“Aprendemos a chamar de força o cansaço das mães”, por Neusa Freitas

“Ela é mãe solo e cuida de mim e da minha irmã.”
“Ela trabalha desde as cinco da manhã.”
“A minha mãe é muito guerreira e trabalhadora.”

Foi assim que Maria Luísa, de apenas 9 anos, emocionou muita gente durante uma entrevista ao vivo em um jornal matutino de Pernambuco, às vésperas do Dia das Mães.
No meio da fala, ela chorou.
Chorou porque sabia que a mãe provavelmente não conseguiria assistir à homenagem. Estaria trabalhando.
Como tantas outras mães brasileiras.
E talvez tenha sido justamente isso que tornou a cena tão dolorosa.
Não era apenas uma criança falando da mãe.
Era uma menina entendendo cedo demais que o trabalho também afasta.

Enquanto assistia à entrevista, pensei em quantas crianças crescem aprendendo a reconhecer o cansaço da mãe antes mesmo de compreender completamente a vida.
Porque criança percebe.

Percebe quando a mãe sai antes do amanhecer.
Percebe quando chega tarde demais.
Percebe quando o sorriso vem acompanhado de exaustão.
Percebe quando o abraço existe, mas o tempo não.

Maria Luísa não falou sobre presente.
Não falou sobre almoço especial.
Falou sobre esforço.
Sobre trabalho.
Sobre ausência.
E isso deveria nos fazer refletir.
Gostamos de homenagear mães.

Mas ainda tratamos como normal o fato de tantas delas viverem permanentemente no limite.

Hoje, mais de 41 milhões de lares brasileiros são sustentados financeiramente por mulheres, o equivalente a 51,7% das famílias do país. Cerca de 93% delas continuam responsáveis também pelo trabalho doméstico.

Ou seja: muitas sustentam a casa, cuidam dos filhos, organizam a rotina e ainda tentam permanecer emocionalmente disponíveis para todos ao redor.

É a mãe que acorda cedo.
Que pega ônibus lotado.
Que trabalha o dia inteiro.
Que volta para casa pensando na comida, na roupa, na lição da escola, nas contas e no dia seguinte.
E, no meio de tudo isso, ainda tenta oferecer colo.
Mas ninguém consegue permanecer inteiro o tempo todo.

O problema é que aprendemos a romantizar isso.
Chamamos de força.
Chamamos de garra.
Chamamos de amor incondicional.
Mas, muitas vezes, trata-se de sobrecarga.
De cansaço acumulado.

De falta de apoio disfarçada de admiração.
Porque chamar uma mãe de guerreira é bonito.
Mas dividir o peso com ela seria muito mais honesto.
Talvez seja isso que falte em muitas homenagens de Dia das Mães: menos discurso bonito e mais presença real.

Menos flores no domingo.
Mais ajuda na segunda-feira.
Porque nenhuma criança deveria crescer admirando a mãe pela capacidade de suportar o cansaço.

Toda mãe merece ser lembrada não apenas pela força com que enfrenta a rotina, mas também pela possibilidade de viver momentos leves ao lado de quem ama.

Mãe também precisa de tempo.
De descanso.
De cuidado.
E, acima de tudo, precisa viver o amor dos filhos sem precisar sobreviver, todos os dias, à própria rotina.

(Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal HojeDiario.com).

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE