“Memória X Esquecimento”, por Luci Bonini

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Há uma frase atribuída ao escritor argentino Jorge Luis Borges: “Somos nossa memória; somos esse quimérico museu de formas inconstantes.” A beleza da frase está em mostrar que a memória não é um depósito de fatos, mas aquilo que nos constitui como sujeitos e como sociedade.
Vivemos cercados por informações. Todos os dias recebemos notícias, mensagens, vídeos, imagens, opiniões e alertas que atravessam nossas telas numa velocidade impressionante. O mundo parece nunca parar. A cada minuto surge um novo assunto, uma nova polêmica, uma nova descoberta ou uma nova tragédia. Tudo acontece ao mesmo tempo e mesmo assim, paradoxalmente, nunca esquecemos tanto.

Registramos tudo. Fotografamos o almoço, a viagem, a reunião de família, a paisagem da janela e até os momentos mais banais do cotidiano. Os computadores armazenam documentos, os celulares guardam milhares de imagens e a internet parece funcionar como uma gigantesca biblioteca capaz de conservar quase tudo o que produzimos. Mas armazenar não é o mesmo que lembrar…

A memória humana nunca foi apenas um depósito de informações. Lembrar exige seleção, significado e afeto. Uma experiência se transforma em memória quando encontra um lugar dentro de nós. É por isso que muitas pessoas conseguem recordar com detalhes um cheiro da infância, uma conversa antiga ou a voz de alguém querido, mas não conseguem se lembrar da notícia que ocupou todas as manchetes na semana passada.

A velocidade faz o seguinte: antes que tenhamos tempo de compreender um acontecimento, outro já ocupa seu lugar. As emoções tornam-se instantâneas. A indignação dura algumas horas. A admiração dura poucos dias. A reflexão, quando acontece, precisa disputar espaço com centenas de estímulos que chegam sem cessar. Acumulamos dados, mas nem sempre construímos conhecimento. Consumimos conteúdos, mas raramente os transformamos em experiência.

O problema não está na tecnologia nem na circulação das informações. O desafio está no ritmo. Quando tudo passa depressa demais, o pensamento perde a oportunidade de amadurecer. E aquilo que não amadurece dificilmente permanece.
Hoje, diante da avalanche diária de informações, talvez uma das formas mais importantes de resistência seja justamente desacelerar. Não para rejeitar o novo, mas para permitir que algumas experiências encontrem morada em nossa memória. Porque aquilo que realmente transforma uma pessoa não é o que ela viu apressadamente, mas o que conseguiu compreender.

No fim das contas, o esquecimento não nasce da ausência de informações. Ele nasce, muitas vezes, do excesso delas. E talvez o maior desafio do nosso tempo não seja aprender a guardar mais coisas, mas reaprender a atribuir significados ao que merece permanecer.

(Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal HojeDiario.com).

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