“O melhor da mesa nunca esteve sobre ela”, por Neusa Freitas

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Quando somos mais novos, talvez não entendamos muito bem a importância de algumas reuniões de família.
O almoço de domingo é só o almoço de domingo. No aniversário, queremos saber do bolo e da festa. No Natal, principalmente quando somos crianças, esperamos pelos presentes. E, no Dia dos Pais, também há o presente, o almoço e aquilo que cada família costuma fazer todos os anos.

Só que a gente cresce e começa a olhar para esses momentos de outro jeito. O presente deixa de ser tão importante. A comida continua fazendo parte, claro, mas também não é o principal. Aos poucos, percebemos que o melhor daquela mesa nunca esteve sobre ela.
Estava sentado ao redor.

Era o pai contando uma história que todo mundo já ouviu; a mãe preocupada em saber se todos comeram; os irmãos falando ao mesmo tempo; os filhos correndo pela casa; os avós; as risadas e até aquelas implicâncias que toda família tem.
Enquanto tudo isso acontece, parece normal. Talvez porque a gente ache que aquilo que sempre esteve ali vai continuar estando.
Mas a vida muda.

Os filhos crescem, as pessoas envelhecem, alguns vão morar longe, outros formam suas próprias famílias, e conciliar a rotina de todo mundo fica cada vez mais difícil. É nessa hora que aquele almoço, que parecia tão comum, começa a ter outro valor.
Acho que uma das coisas que a gente aprende com o tempo é justamente isso: estar junto é um privilégio.

Hoje, muitas famílias se reúnem para comemorar o Dia dos Pais. E a data também nos faz pensar na importância que um pai tem na construção da nossa história.
Na infância, o pai parece saber resolver tudo. É quem segura a nossa mão, ensina, protege, dá bronca, estabelece limites e tenta mostrar um caminho quando ainda nem sabemos direito para onde estamos indo.

Depois crescemos e descobrimos que nossos pais também não sabiam tudo. Eles tiveram dúvidas, erraram, acertaram e tomaram decisões sem ter certeza de que estavam fazendo o melhor. Também foram aprendendo ao longo do caminho.
E acho que entender isso faz parte de crescer.

Começamos a enxergar não apenas o pai, mas também o homem. A história que ele viveu, as dificuldades que enfrentou, as escolhas que fez e muitas coisas das quais provavelmente abriu mão pela família.
Nem todo pai demonstra amor da mesma maneira.

Alguns abraçam e dizem “eu te amo” com facilidade. Outros demonstram perguntando se chegamos bem, querendo saber se está tudo certo, oferecendo ajuda mesmo quando não pedimos ou repetindo aquele conselho que já ouvimos tantas vezes.
E isso não muda só porque os filhos cresceram. Não importa quantos anos tenhamos. Para um pai, continuamos sendo filhos.

Só que chega uma hora em que também percebemos que aquele pai que sempre cuidou da gente envelheceu. Aos poucos, somos nós que começamos a perguntar se ele chegou bem, se precisa de alguma coisa, se está tudo certo.
E talvez seja por isso que datas como o Dia dos Pais ganhem outro significado conforme os anos passam.

São oportunidades de reunir quem a correria do dia a dia tantas vezes separa. De sentar à mesa sem tanta pressa, conversar, ouvir mais uma vez aquela história que já conhecemos, tirar fotografias, dar presentes e manter as tradições que cada família construiu.
Mas, principalmente, de estar junto.

Porque presentes envelhecem. Alguns quebram, outros acabam esquecidos em algum lugar. Já uma conversa, uma risada, um abraço ou aquele almoço que parecia apenas mais um podem virar lembranças que levamos para a vida.
Hoje é Dia dos Pais.

Que haja presentes, almoço, fotografias e tudo aquilo que cada família gosta de fazer. Mas que haja, principalmente, tempo para estar perto de quem importa.
Talvez a gente demore alguns anos para entender isso.
Mas entende.
O melhor da mesa nunca esteve sobre ela.
Sempre esteve sentado ao redor.

(Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal HojeDiario.com).

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