“Sorrir ou só rir?”, por Luci Bonini

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Esses dias fui ao dentista por causa de um dente quebrado. Não é o primeiro e espero que seja o último. Desde a infância, meus pais insistiam na limpeza dos dentes, nas visitas ao dentista e na qualidade de um tratamento odontológico.
Quando voltei do dentista, fiz uma reflexão, pensando naquele momento na vida de uma família que passa quase sempre despercebido, menos pela mãe. É quando nasce o primeiro dente. De repente, aquele pequeno pontinho branco rompe a gengiva, entre choros, manhas, mordidas em tudo o que encontra pela frente e um orgulho desmedido dos pais, que fazem questão de anunciar a novidade.

Curioso… ninguém comemora o primeiro fio de cabelo. Mas o primeiro dente merece fotografias. Talvez porque ali começa uma nova etapa da vida, e na verdade, só trocamos uma vez na vida, cabelos caem todos os dias…..
É com os dentes que aprendemos a experimentar o mundo. Primeiro uma fruta amassada. Depois um pedaço de pão. Mais tarde a maçã roubada da fruteira, o milho da festa junina, a pipoca do cinema, a carne do churrasco em família, o beijo tímido da adolescência escondendo o aparelho ortodôntico.

Eles aparecem nas fotografias da infância, desaparecem nas janelas visitadas pela fada do dente, recebem aparelhos coloridos na juventude e, silenciosamente, vão carregando as marcas do tempo, como as fotos de antigamente, eles vão amarelando com o tempo.
Talvez por isso doa tanto quando um sorriso se perde. Não apenas pela ausência de um dente, mas porque, muitas vezes, junto com ele desaparece a coragem de rir. Há pessoas que deixam de conversar, de posar para uma foto ou até mesmo de se encontrar com amigos, porque escondem a boca.

Muitos idosos acabam não cuidando, mesmo com todo o desenvolvimento na área odontológica. A odontologia transformou-se em uma das áreas da medicina que mais evoluíram nas últimas décadas. O que antes era resignação hoje pode ser reconstrução. Onde havia vergonha, muitas vezes nasce novamente a confiança. Onde havia silêncio, volta a surgir uma gargalhada.
O sorriso, talvez, seja uma das poucas coisas que nos diferencia dos demais animais. Os animais mostram os dentes em situações de perigo, de ataque, de medo… os homens também fazem isso, mas eles também sorriem!

O riso, normalmente, vem seguido de uma coisa engraçada… o sorriso pode vir da leveza, da empatia, do flerte, dos enlevos dos namorados… Em algum momento da nossa história, sorrir foi muito mais do que uma mudança de expressão. Foi uma mudança de significado. E talvez seja exatamente aí que tenha começado a humanidade.

(Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal HojeDiario.com).

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