“O coração que Rafaella esperava não chegou. O legado dela, sim!”, por Neusa Freitas

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Há alguns dias, conversei com um pai que perdeu a filha.
A filha dele se chamava Rafaella Marques da Silva.
Tinha 22 anos.
Era suzanense.
Havia acabado de concluir a graduação em Odontologia e sonhava em exercer a profissão que escolheu.

Mas Rafaella também enfrentava uma luta desde a infância. Convivia com distrofia muscular e, com o avanço da doença, passou a ter complicações cardíacas graves.
Ela aguardava um transplante de coração.
Esperava uma chance de continuar vivendo.
Essa chance não chegou a tempo.
Rafaella faleceu em julho de 2023.

O senhor Jurandir falou de Rafaella com muita saudade. Ao lembrar da família que construiu, demonstrou amor pela esposa, Silvana, com quem é casado há 43 anos, e falou com orgulho dos filhos, Jurandir Ricardo, de 43 anos, e Rodrigo Marques, de 36, ambos engenheiros eletricistas. Também mencionou os três netos com o afeto de um avô que encontra na família uma das maiores razões para seguir em frente.

O senhor Jurandir Marques poderia ter se calado diante da dor. Ninguém lhe cobraria outra atitude.
Mas ele decidiu não se calar.
Passou a contar a história da filha quantas vezes fossem necessárias e transformou a própria perda em uma causa de conscientização sobre a doação de órgãos.
Porque, para muitas famílias, esse assunto só surge quando a dor já chegou.
Quando a decisão precisa ser tomada no momento mais difícil.
Quando ninguém está preparado.

E é justamente por isso que falar sobre o tema com antecedência é tão importante.
Falar sobre doação de órgãos é falar sobre vida.
Sobre famílias que esperam.
Sobre pacientes que dependem de uma decisão.
Sobre pessoas que poderiam ter uma segunda chance.

Na última quarta-feira (10), a Câmara de Suzano aprovou, por unanimidade, a criação da Semana Municipal Rafaella Marques da Silva de Conscientização sobre a Doação de Órgãos e Tecidos.
É uma homenagem, sim.
Mas também é um alerta.
Porque a história de Rafaella não pode ser lembrada apenas pela ausência.
Precisa servir para provocar reflexões e incentivar o diálogo.

Dentro de casa.
Entre pais e filhos.
Entre irmãos.
Entre pessoas que talvez nunca tenham dito à família se desejam ou não ser doadoras.

O senhor Jurandir decidiu continuar falando da filha não apenas por saudade, mas porque sabe que essa história pode ajudar outras famílias a não enfrentarem a mesma espera.
E existe algo admirável nisso.
Porque não é simples transformar uma perda tão profunda em uma causa pública.
Não é simples revisitar a própria dor para conscientizar outras pessoas.
Mas o senhor Jurandir decidiu fazer exatamente isso.
Rafaella não recebeu o coração que esperava.
Mas sua história pode ajudar outras pessoas a receberem o que ela aguardava: uma nova oportunidade de vida.
E talvez não exista legado maior do que esse.

(Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal HojeDiario.com).

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