“Deputado estadual: você sabe de quem cobrar?”, por Neusa Freitas

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Quando falta médico, a gente cobra. Quando a escola não funciona como deveria, também. Segurança, transporte, estradas, serviços públicos. Quando alguma coisa não funciona, queremos uma resposta. E estamos certos em cobrar. A questão é: sabemos de quem?

Na semana passada, falei aqui sobre o voto para deputado federal e perguntei se você ainda se lembrava em quem havia votado quatro anos atrás. Desta vez, quero partir de uma situação que faz parte do nosso cotidiano. Nem sempre é fácil saber onde termina a responsabilidade de um prefeito, onde começa a do governador e qual é, de fato, o papel de um deputado.

No dia 4 de outubro, depois do voto para deputado federal, vamos escolher nossos deputados estaduais. Em São Paulo, são 94 cadeiras na Assembleia Legislativa, com mandatos de quatro anos. É muita gente decidindo questões importantes para o Estado e, ainda assim, acredito que esse seja um daqueles cargos sobre os quais boa parte dos eleitores sabe menos do que deveria.

O deputado estadual não administra uma cidade. Não comanda hospitais, escolas ou a polícia. Também não tem o poder de decidir sozinho que uma obra será feita. Seu trabalho está na Assembleia Legislativa, discutindo e votando leis estaduais, participando das decisões sobre o orçamento e fiscalizando o governo do Estado. E talvez seja justamente essa última função que receba menos atenção.

Estamos acostumados a ver deputados anunciando recursos para as cidades. É importante, claro. Uma verba destinada a um município pode ajudar a tirar um projeto do papel, melhorar um serviço ou atender a uma necessidade da população. Mas um mandato não se resume aos recursos que um parlamentar consegue destinar.

Quero saber também como ele vota. O que defende. Como se posiciona diante de decisões importantes. Se acompanha a aplicação do dinheiro público e se fiscaliza o governo, inclusive quando faz parte do mesmo grupo político de quem está no Palácio dos Bandeirantes. Isso também é mandato. Talvez renda menos fotografias, menos vídeos e menos anúncios nas redes sociais. Mas não é menos importante.

E essa diferença merece atenção agora, durante a campanha. É comum vermos candidatos falando sobre hospitais, escolas, segurança, transporte, obras e tantos outros problemas que fazem parte da vida nas cidades. Não há nada de errado em apresentar propostas para essas áreas. O problema começa quando uma promessa faz parecer que o deputado terá poderes que o cargo não lhe dá.

Por isso, quando ouvir uma proposta, tente entender como ela será colocada em prática. Depende de uma lei? De recursos do orçamento estadual? De uma decisão do governador? Da prefeitura? Pode parecer detalhe, mas não é. Saber o que um deputado pode ou não fazer ajuda a separar uma proposta possível de uma boa frase de campanha. Também ajuda depois da eleição.

Às vezes, cobramos da prefeitura um problema que depende do Estado. Em outras situações, esperamos do deputado uma solução que cabe ao Executivo. No meio dessa confusão de responsabilidades, todo mundo é cobrado e, ao mesmo tempo, ninguém responde por nada. Talvez seja conveniente que continue assim. Para o eleitor, certamente não é.

Quanto mais sabemos sobre a responsabilidade de cada cargo, mais difícil fica aceitar explicações vagas quando alguma coisa não funciona. E mais objetiva se torna a cobrança.

Até as eleições, vou continuar falando aqui sobre os cargos que encontraremos na urna, seguindo a ordem da votação. Não para dizer em quem votar, mas porque conhecer quem pede o nosso voto é tão importante quanto entender o poder que estamos entregando a essa pessoa.

No dia 4 de outubro, você vai digitar cinco números para escolher seu deputado estadual. Antes disso, pesquise o candidato, conheça suas propostas e sua trajetória. Mas procure saber também o que ele realmente poderá fazer caso seja eleito. Depois da eleição, continue acompanhando.

Porque, quatro anos depois, é muito fácil ouvir novamente que determinado problema não era responsabilidade de quem você cobrou. Desta vez, vale saber antes de quem ela é.

(Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal HojeDiario.com).

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