“A fauna humana no meu feed ll”, por Luci Bonini

PUBLICIDADE

Na semana passada, comecei a contar sobre uma mania recente: catalogar a fauna humana que habita minhas redes sociais. Depois dos Profetas, Alarmistas, Saudosistas, Avós Universais e outros personagens que encontrei pelo caminho, percebi que minha pequena antropologia do Instagram e do Facebook estava apenas começando.

E, evidentemente, temos os Tribunos da Ágora Digital — um título que, confesso, levei uma semana para pensar. Eles discutem política. Discutem política em vídeos sobre política e, com extraordinária competência, também conseguem discuti-la em vídeos sobre culinária, futebol, previsão do tempo, casamento, educação infantil e capivaras. Dê a eles uma fotografia de um pôr do sol e, em poucos comentários, alguém descobrirá a responsabilidade do governo ou da oposição pelo fenômeno.

Mas meu catálogo não estaria completo sem os Bobos da Corte. São os piadistas, brincalhões e criadores de situações absurdas. Enquanto profetas anunciam o fim do mundo e tribunos discutem quem foi responsável por ele, aparece um cachorro usando óculos escuros ou um gato tentando entrar numa caixa três vezes menor que seu corpo. Durante quinze segundos, a humanidade fica suportável novamente.

Aliás, os animais constituem uma civilização à parte nas redes. Há os amantes de gatos, cachorros, cavalos, cabras, papagaios e, mais recentemente, capivaras. Cada espécie parece ter recebido uma personalidade coletiva. O gato é aristocrático e ligeiramente psicopata. O cachorro é bondoso e emocionalmente dependente. A cabra é uma força da natureza. O papagaio assumiu a função de comentarista social e diz justamente aquilo que ninguém deveria dizer.

Existem também os Pastores Digitais. Não necessariamente religiosos. São terapeutas, coaches, conselheiros amorosos, especialistas em produtividade e intérpretes da alma humana. Em menos de um minuto, descobrem por que você procrastina, por que escolheu o parceiro errado, por que não prosperou e quais traumas da infância explicam sua dificuldade de organizar o armário. Ao lado deles estão os Oráculos: astrólogos, tarólogos, numerólogos e intérpretes das energias do universo.

Já nem me surpreendo quando aparece a frase: “Se este vídeo chegou até você, não foi por acaso.” Sempre imagino o algoritmo ouvindo isso e murmurando: “Seu idiota…”

E aquele que ainda diz: “Não pule este vídeo.” Aí, então, eu pulo mesmo…

Há ainda os Artistas da Praça, talvez uma das minhas categorias preferidas. Pintores, músicos, escultores, artesãos, compositores e desenhistas aparecem dizendo: “Me dê quinze segundos para mostrar meu trabalho.” E eu dou.

Esses dias, inclusive, parei para comentar o trabalho de um jovem cantor e compositor que, entre uma música e outra, ainda brincava com seus cachorros. Talvez seja justamente isso que me encante nesses artistas: em meio a tanta gente querendo nos ensinar alguma coisa, vender alguma coisa ou prever alguma coisa, eles simplesmente chegam e dizem: “Olhe o que eu fiz.”

Também gosto dos Fazendeiros Digitais. Eles mostram plantações, colheitas, tratores, cavalos, galinhas, nascimento de bezerros e nuvens carregadas chegando sobre a lavoura. Em meio à velocidade frenética das redes, lembram que existem coisas que continuam obedecendo a outro relógio. É preciso plantar. É preciso esperar a chuva. É preciso esperar crescer.

Minha coleção já inclui muitos outros: os Juízes, que assistem a dez segundos de uma história e imediatamente dão a sentença; os Detetives, que encontram conspirações em detalhes imperceptíveis; os Sábios Instantâneos, que nos ensinam “cinco coisas que descobriram depois dos cinquenta”; os Peregrinos, eternamente viajando; os Narcisos, dedicados à contemplação de si mesmos; e os Confidentes Públicos, que começam seus vídeos dizendo: “Nunca contei isso para ninguém”, segundos antes de contar para dois milhões de seguidores.

Depois de algum tempo realizando essa minha antropologia doméstica — ou talvez uma etnografia absolutamente não autorizada das redes sociais —, percebi algo que achei fascinante.

Nós construímos uma das tecnologias mais sofisticadas da história humana e imediatamente a povoamos com personagens antiquíssimos, muitos deles presentes até hoje nos contos de fadas, nos mitos e na literatura.

O profeta, o bufão, o curandeiro, o contador de histórias, o artista, o juiz, o viajante, o agricultor, o adivinho, o guardião da memória e o arauto já estavam conosco muito antes da eletricidade. Mudamos os nomes, as roupas e os cenários. Demos a eles celulares, filtros, câmeras e conexão de alta velocidade. O contador de histórias ganhou seguidores; o oráculo descobriu os vídeos curtos; o bufão aprendeu a fazer reels; o artista ganhou quinze segundos; e o profeta finalmente encontrou uma audiência que nunca dorme.

Talvez Jung se divertisse bastante navegando pelas redes sociais, ou talvez desligasse o celular depois de cinco minutos.

De qualquer maneira, uma coisa parece certa: inventamos máquinas extraordinariamente modernas, mas continuamos levando para dentro delas nossos personagens mais antigos. Eu acho que a humanidade continua contando as mesmas histórias sobre si mesma. Não sentamos mais no banco da praça para contar e ouvir histórias; na maioria das vezes, nossa praça é a cama, o sofá, a folga da hora do almoço.

(Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal HojeDiario.com).

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE