“Quando ser contra os direitos das mulheres vira bandeira”, por Neusa Freitas

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Tem alguma coisa muito errada quando ser contra os direitos das mulheres passa a ser motivo de orgulho.
E não estou falando de concordar com tudo o que é dito em nome do feminismo. Não concordamos nem entre nós, mulheres. Existem pautas que dividem opiniões, movimentos que podem ser questionados e discussões que precisam acontecer. Faz parte.
O que me incomoda é outra coisa. É ver a resistência aos direitos das mulheres sendo transformada em bandeira, quase como se nós tivéssemos avançado demais e agora fosse preciso colocar algum freio nisso. Avançado demais em quê? Talvez essa seja uma boa pergunta.

Porque, quando a gente tira os rótulos da discussão, estamos falando de coisas bastante concretas. Mulheres estudando, trabalhando, votando, ocupando espaços de decisão, tendo independência financeira, denunciando violência, terminando relacionamentos que não querem mais e decidindo sobre a própria vida. Qual dessas coisas foi longe demais?

Hoje parece óbvio que uma mulher possa trabalhar sem pedir autorização ao marido. Nem sempre foi. Parece óbvio que tenhamos direito ao voto, ao próprio patrimônio e que a violência dentro de casa seja um problema do Estado, e não um assunto que deva permanecer entre quatro paredes. Nada disso caiu do céu.
Foram mulheres que vieram antes de nós que enfrentaram uma sociedade que também dizia que elas estavam exagerando, querendo demais, destruindo famílias, desafiando uma ordem que deveria permanecer como estava. O tempo passou e boa parte daquilo que parecia absurdo virou direito básico.

Por isso, me chama a atenção quando vejo o mesmo discurso reaparecendo com outra embalagem. Talvez a pergunta mais honesta seja: o que exatamente alguém perde quando uma mulher ganha um direito?

Se uma mulher recebe o mesmo salário pelo mesmo trabalho, o que um homem perdeu? Se ela ocupa um cargo de liderança, quem foi diminuído? Se denuncia uma agressão, por que isso incomoda quem não agride? Se decide ir embora de uma relação que lhe faz mal, de quem exatamente ela está retirando um direito?

A resposta começa a ficar desconfortável porque, muitas vezes, não estamos falando de perda de direitos. Estamos falando de perda de controle.

Uma mulher que tem independência financeira pode ir embora. Uma mulher que conhece seus direitos começa a perceber que certas coisas que aprendeu a considerar normais talvez nunca tenham sido.

Controle não é cuidado. Humilhação não faz parte de casamento. Ciúme não é prova de amor. Ter uma família não significa aceitar qualquer coisa para mantê-la. E quando uma mulher percebe isso, alguma coisa muda. Talvez seja justamente essa mudança que ainda provoque tanta reação.

Durante muito tempo, ensinaram as mulheres a suportar. A preservar o casamento. A pensar nos filhos. A não provocar. A não responder. A relevar porque “homem é assim mesmo”. A diminuir seus próprios sonhos para que a família funcionasse.

E ainda hoje existe uma cobrança enorme sobre a mulher que decide não suportar. Se termina, deveria ter tentado mais. Se denuncia, alguém pergunta o que aconteceu antes. Se fala, exagera. Se se impõe, é difícil. Se ocupa espaço, é ambiciosa. Se questiona a desigualdade, está se fazendo de vítima.
Mudam as palavras, mas algumas cobranças continuam assustadoramente parecidas. E não dá para discutir tudo isso fingindo que estamos falando de um problema que ficou no passado.

Entre janeiro e julho deste ano, 848 mulheres foram vítimas de feminicídio no Brasil, segundo dados divulgados pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública. São 848 mulheres em sete meses
Então, talvez o nosso problema não seja haver mulheres falando demais sobre direitos. Ainda existem mulheres demais sendo mortas porque alguém não aceitou que elas tinham o direito de decidir sobre a própria vida.

Claro que nem toda relação abusiva termina em feminicídio e que cada crime tem suas circunstâncias. Mas existe algo anterior à violência extrema que precisamos continuar discutindo: a ideia de posse. A sensação de que o outro pode determinar aonde uma mulher vai, com quem fala, como se veste, quando sai e até se pode terminar uma relação. Isso ainda está entre nós.

E é justamente por isso que me causa tanta estranheza ver mulheres fazendo da oposição aos direitos das próprias mulheres uma bandeira. Não porque uma mulher tenha obrigação de ser feminista. Não tem.

Também não precisamos concordar umas com as outras só porque somos mulheres. Seria até contraditório defender nossa liberdade e, ao mesmo tempo, dizer como outra mulher deve pensar. Mas existe uma diferença entre questionar o feminismo e tratar direitos conquistados por mulheres como se fossem o problema.

Até porque muitas das mulheres que hoje rejeitam essa luta podem estudar, trabalhar, votar, ter patrimônio, construir uma carreira, participar da política, terminar um casamento e seguir a própria vida graças a mudanças que outras mulheres precisaram enfrentar muita resistência para conquistar.
Não é preciso agradecer ao feminismo todos os dias por isso. Mas talvez seja importante não esquecer a história. Porque direitos parecem muito naturais quando a gente nasce com eles. E talvez por isso seja tão fácil acreditar que nunca poderiam desaparecer.

Podemos discutir leis, políticas públicas, movimentos, excessos, discursos e tudo o mais. Aliás, devemos. Nenhuma pauta deveria estar acima do debate. Mas igualdade não deveria ser tratada como excesso. Autonomia não deveria ser confundida com ameaça. E direito de mulher não deveria depender da aprovação de quem quer que seja.

No fim, talvez eu esteja fazendo a pergunta errada desde o começo. Talvez não seja preciso perguntar por que ainda existem pessoas incomodadas com os direitos das mulheres. Talvez seja mais interessante perguntar o que esses direitos tiraram delas.
Se a resposta não for nenhum direito, nenhuma liberdade e nenhuma dignidade, sobra uma possibilidade bem menos confortável. Talvez o que esteja sendo perdido seja apenas o poder de decidir por nós.

(Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal HojeDiario.com).

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