“A eleição na floresta”, por Luci Bonini

PUBLICIDADE

Aproveitando o clima das eleições, me ocorreu de pegar um texto que escrevi há algum tempo e só agora me lembrei dele. Claro que melhorei algumas coisas, mas em essência, aí vai…

Era uma vez uma floresta… A cada quatro anos, acontecia um fenômeno curioso: os animais mais importantes abandonavam suas confortáveis moradias e percorriam os caminhos à procura dos demais habitantes. Era tempo de eleição.

Os leões prometiam segurança. As raposas falavam de prosperidade. Os pavões exibiam suas belas plumagens e anunciavam tempos gloriosos. Os papagaios repetiam discursos tão bem ensaiados que ninguém sabia ao certo se compreendiam aquilo que diziam.

Havia festas, cantorias e promessas. Nunca se vira tanta gente importante caminhando pelas trilhas da floresta.

Até que, certa manhã, uma velha coruja propôs uma reunião diferente.

— Antes de escolhermos quem vai governar, gostaria que todos conhecessem a floresta que dizem querer representar.

O leão, que já se considerava favorito, respondeu:

— Mas eu conheço cada árvore deste lugar!

— Conhece as árvores — observou a coruja. — Mas conhece quem vive debaixo delas?

O silêncio foi interrompido por uma pequena formiga.

— Eu gostaria de mostrar minha casa.

Os candidatos acompanharam a formiga até um formigueiro onde centenas de outras trabalhavam incessantemente. Algumas carregavam alimentos; outras cuidavam das crias. Uma delas, sozinha, tentava alimentar cinco pequenos.

— Onde está o companheiro? — perguntou o pavão.

— Não está — respondeu a formiga. — E isso não diminui o tamanho da minha família, apenas aumenta o peso que carrego.

O pavão, pela primeira vez, não encontrou palavras.

Mais adiante, encontraram uma coelha que conduzia seus filhotes por um caminho estreito.

— Por que não estão na escola? — perguntou a raposa.

— Porque a escola fica depois do rio. Quando chove, a ponte desaparece. E, quando conseguimos atravessar, nem sempre encontramos professores.

Uma das pequenas coelhas aproximou-se timidamente.

— Eu queria aprender a ler todos os livros da floresta. Mas também queria poder voltar para casa sem medo.

Os candidatos anotaram alguma coisa. A coruja percebeu que nenhum deles perguntou à menina do que ela tinha medo.

Continuaram a caminhada.

Encontraram um castor que construíra, com enorme esforço, uma pequena oficina. Trabalhava desde o amanhecer, empregava outros animais e sonhava ampliar seu negócio.

— Preciso de caminhos transitáveis, regras compreensíveis e oportunidades para continuar trabalhando — explicou. — Não quero privilégios. Quero condições para prosperar sem precisar abandonar minha oficina.

O leão prometeu construir uma grande estrada. O castor perguntou quem cuidaria da pequena ponte que já existia. Não obteve resposta.

Pouco depois, chegaram à moradia de uma tartaruga muito velha. Vivia sozinha, cercada de lembranças.

— A senhora precisa de alguma coisa? — perguntou o papagaio.

— De muitas — respondeu ela. — Mas, principalmente, preciso que parem de pensar que, porque caminho devagar, deixei de fazer parte desta floresta.

Perto dali, um jovem cervo, que nascera com uma das patas comprometidas, tentava alcançar a biblioteca. Havia uma escadaria enorme na entrada.

— Por que não pede ajuda? — perguntou o leão.

— Porque gostaria de entrar sozinho, como qualquer outro animal.

A coruja observou que aquela escadaria fora construída muitos anos antes. Desde então, vários governantes haviam passado pela floresta. Todos tinham admirado a biblioteca. Nenhum reparara na entrada.

Quando o sol começava a desaparecer, chegaram a uma região pouco visitada. Ali encontraram um lobo que caminhava cabisbaixo.

Os candidatos recuaram.

— Cuidado! — cochichou a raposa. — Ele esteve preso!

O lobo ouviu.

— Estive, sim. Cometi um erro, fui julgado e cumpri minha pena. Agora procuro trabalho, mas ninguém me aceita. Procuro moradia, mas ninguém confia em mim. Dizem que paguei minha dívida com a floresta, porém continuam me cobrando todos os dias.

— E o que espera de nós? — perguntou o leão.

— Não espero que esqueçam o que fiz. Espero apenas que me permitam construir uma vida diferente.

A coruja permaneceu em silêncio. Sabia que algumas perguntas não poderiam ser respondidas com promessas.

Na volta, os candidatos estavam cansados. Tinham atravessado caminhos difíceis, ouvido histórias incômodas e descoberto problemas que não apareciam nos grandes discursos.

Ao chegarem à praça central, encontraram os demais animais reunidos. O leão preparou-se para falar de suas realizações. A raposa organizou seus argumentos. O pavão abriu a cauda. O papagaio limpou a garganta.

Mas a coruja pediu a palavra.

— Hoje vocês conheceram apenas uma pequena parte desta floresta. Há outros moradores que não conseguimos visitar. Há os que perderam suas casas, os que trabalham sem descanso, os que adoecem sem assistência, os que envelhecem sem companhia. Há também aqueles que nem sequer conseguem chegar a esta praça para serem ouvidos.

Fez uma pausa e continuou:

— Durante as eleições, todos querem ser vistos. Mas governar exige aprender a ver.

Um pequeno esquilo levantou a pata.

— E como saberemos se eles aprenderam?

A coruja respondeu:

— Talvez devêssemos perguntar menos o que prometem fazer por nós e mais o que compreenderam depois de nos ouvir. E, quando a eleição terminar, continuar fazendo perguntas.

Na manhã seguinte, os cartazes continuavam espalhados pelas árvores. Os discursos também continuaram. Afinal, a floresta ainda precisava escolher seus representantes. Mas uma coisa havia mudado. Na entrada da praça, alguém escrevera numa velha placa:

“Uma floresta não é grande pela altura de suas árvores, mas pelo espaço que oferece a todos os que nela vivem.”

Ninguém soube quem escrevera aquelas palavras.

Alguns disseram que fora a coruja. Outros, que fora a pequena coelha que sonhava com os livros.

E houve quem afirmasse que a frase sempre estivera ali.

Apenas ninguém a tinha visto.

(Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal HojeDiario.com).

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE